• Tamanho da letra:
  • -A
  • +A

Início » Opinião

22.03.2017 | 00:05

 Compartilhe:

Transposição do rio São Francisco levou alegria e políticos para o Cariri Paraibano.

Mas o rio grita pela revitalização. Urgente!

Antônio Galdino

divulgação
Águas do rio São Francisco chegam à Paraíba

Águas do rio São Francisco chegam à Paraíba

 Acompanho com um misto de alegria e de preocupação a euforia dos conterrâneos paraibanos de minha Monteiro e região celebrando a chegada das águas do rio São Francisco às terras áridas do Cariri Paraibano justo em um tempo que milhões sofrem com seca terrível que se arrasta por mais de seis anos destruindo toda a vida destas terras sertanejas.

Não tenho como não me alegrar com os meus conterrâneos paraibanos que, assim como os pernambucanos e em breve os cearenses e potiguares também vão exultar e festejar a chegada benfazeja destas águas tão esperadas.

O que me deixa apreensivo é a falta de cuidado do governo federal com a revitalização deste rio agora ainda mais da unidade nacional e desta forma também pensam muitos estudiosos dos biomas Cerrado e Caatinga, aliás, temas da Campanha da Fraternidade lançado pela Igreja Católica este ano.

O meu receio, e de muitos, é que esta euforia natural de hoje, também aproveitada para fins políticos eleitoreiros, venha a se transformar em lágrimas, o que fatalmente poderá acontecer se medidas urgentes e recursos decentes não forem destinados ao projeto de revitalização deste rio São Francisco que se arrasta desde 2004.
Aí, meus queridos irmãos nordestinos, poderemos estar vendo o fim, a morte, da galinha dos ovos de ouro.

No ano de 2006, ao realizar o Curso de Política e Estratégia pela ADESG da Bahia, e após a conclusão de um curso de Pós-Graduação sobre Turismo e Desenvolvimento Sustentável, pela UNEB e um Mestrado com o mesmo tema e foco, ambos tendo como estudo o rio São Francisco, fui indicado para coordenar uma equipe de estudos que se chamou de “Águas Inquietas” e formada por professores de geografia e de história, turismólogos, oficiais militares, políticos e outros profissionais e tomamos como centro do estudo que seria a monografia deste curso, a temática da Transposição do Rio São Francisco, mostrando os argumentos que que defendiam esse projeto e os que estavam contrários a ele.

Foram meses de pesquisa intensa e reunimos os dados, propostas e promessas do governo federal e opiniões de políticos, ministros de Estado, juristas e estudiosos renomados sobre o tema. Apresentamos as duas faces da moeda e, na época havia um consenso: os contrários argumentavam que ele até seria minimizado se antes dele fosse desenvolvido o projeto de revitalização do rio em toda a sua extensão e os favoráveis logo apresentaram um projeto de revitalização.

Mas, como se viu ao longo de mais de 10 anos, priorizou-se o projeto de transposição que se transformou em “questão política”, sempre apoiada pela publicidade do governo de que ele “atenderia a mais de 12 milhões de nordestinos”. Ou seja, desde a sua concepção, o projeto foi construído, a duras penas e custos elevadíssimos, muitas vezes superior ao valor previsto no seu início e tocado sob o foco da emoção, da “necessidade de se atender aos coitadinhos do Nordeste”, que em grande maioria, numa gratidão antecipada, depositou milhões de votos para o presidente Lula e depois para a presidente Dilma, presidentes do Brasil.

Apesar dos protestos dos índios e ribeirinhos, da greve de fome do Frei Luiz, dos serviços mal feitos por grandes empreiteiras, dos muitos anos que o projeto de transposição do rio São Francisco, que tentaram maquiar com outro nome bonito e menos agressivo - "Projeto de Integração do Rio São Francisco com Bacias Hidrográficas”, a transposição aconteceu para alguns lugares e se acelera para outros e políticos e sertanejos fazem grande festa e comemoram em grande euforia a chegada das águas para mudar a paisagem.

divulgação
Eixos Leste e Norte da Transposição do rio São Francisco

Eixos Leste e Norte da Transposição do rio São Francisco

Mas, e a revitalização? Será que sem ela e mesmo sendo as águas dos canais do Eixo Leste e do Eixo Norte uma vazão pequena, sem a revitalização do rio São Francisco, que deveria ter sido feita antes da transposição, essas águas vão durar quanto tempo?
A falta de chuvas ao longo da Bacia do São Francisco já está trazendo sérios problemas à região. A retirada da mata ciliar tem provocado assoreamentos que impedem a navegação em muitos grandes trechos do rio.

Já há alguns anos uma moradora da região da foz do São Francisco declarava a um repórter da televisão que documentava o Farol do Povoado Cabeço no meio das águas e todas as casas deste povoado destruídas pelo avanço do mar: “O rio tá fraco, moço. O mar tá engolindo o rio.”

Foto: Jonathan Lins - G1
Ribeirinhos da foz sobem o rio para encontrar água doce

Ribeirinhos da foz sobem o rio para encontrar água doce

 Por esses dias, (21/03) o Portal G1/Alagoas mostrou um documentário fotográfico de grande impacto, mostrando as pessoas andando por quilômetros rio acima para conseguir a água doce para consumo humano porque a salinização avança por quilômetros rio acima.

Foto: Jonathan Lins - G1
Banco de areia em Piaçabuçu/AL, foz do rio São Francisco

Banco de areia em Piaçabuçu/AL, foz do rio São Francisco

Há alguns meses, foi encontrado um tubarão martelo, habitante natural das águas salgadas do Oceano Atlântico, quilômetros a dentro do rio São Francisco.

No final de dezembro de 2015, o professor “Altair Sales Barbosa — fundador do Memorial do Cerrado, um dos destaques na área de pesquisa e extensão da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás), reconhecido como uma das maiores autoridades científicas no estudo do bioma Cerrado, que dedica especial atenção também ao Rio São Francisco, que é o maior afetado com a devastação da região baiana, já que vêm de lá seus afluentes da margem esquerda”, concedeu preocupante entrevista ao Jornal Opção (www.jornalopcao.com.br) onde mostra sua grande preocupação com a situação deste rio e alerta autoridades e moradores para a situação de caos que se aproxima, se mantidas as atuais condições.

Diz o professor, em certo momento: “O São Francisco já não é mais um rio. E a transposição vai decretar seu fim definitivo. A transposição do rio, levada adiante pelo governo federal, será o golpe fatal no Velho Chico. “É algo muito mais sério do que se pode imaginar”.

Foto: Antônio Galdino
Cachoeira de Paulo Afonso em Março de 2006

Cachoeira de Paulo Afonso em Março de 2006

Nos últimos anos, as consequências da redução das águas do rio São Francisco já estão trazendo problemas sérios para todo o Nordeste.
A Companhia Hidro Elétrica do São Francisco – Chesf, que se instalou na região de Paulo Afonso, sub-médio São Francisco no final do ano de 1948, assim fez como Delmiro Gouveia, em 1913, aqui se instalou por conta das muitas águas da Cachoeira de Paulo Afonso que já jogou do alto de seus paredões de granito mais de 15 mil metros cúbicos de água por segundo. Até o ano de 2007, nas grandes cheios do São Francisco, a vazão era sempre grandiosa.

foto: Tavares
Usinas PA1,2 e 3, da Chesf em Paulo Afonso - BA

Usinas PA1,2 e 3, da Chesf em Paulo Afonso - BA

 A Chesf construiu cinco grandes usinas hidrelétricas em Paulo Afonso, outra em Petrolândia, a apenas 40 quilômetros de Paulo Afonso e a maior de todas da hidrelétrica, a Usina de Xingó, em Canindé do São Francisco, a 80 quilômetros abaixo de Paulo Afonso. Se todas funcionassem a plena carga, como há alguns anos atrás, a geração de energia hidroelétrica deste complexo seria de mais de 8.000 megwatts, dos 10 mil produzidos por toda a Chesf.

Foto: Antônio Galdino
Cachoeira de Paulo Afonso - Março 2007

Cachoeira de Paulo Afonso - Março 2007

Para alimentar estas usinas, foram construídos grandes reservatórios como o de Sobradinho, na Bahia, com capacidade de acumular mais de 34 bilhões de metros cúbicos de águas, o de Itaparica (11 bilhões m³), o de Moxotó (1,2 bilhão m³) e o de Xingó, este dentro do cânion de 65 quilômetros que começa em Paulo Afonso, com 3,2 bilhões de metros cúbicos de água.

Foto: Antônio Galdino
Cachoeira de Paulo Afonso em Março de 2017

Cachoeira de Paulo Afonso em Março de 2017

 Mas o rio está secando. Dos 15 mil metros cúbicos de água que desciam pela Cachoeira de Paulo Afonso agora só chegam por estas terras 700 metros cúbicos e, em consequência disso, a maioria das máquinas das usinas hidrelétricas estão paradas.

Enquanto isso foi anunciado nesses dias, para espanto do senador Otto Alencar, da Bahia, a verba de apenas 17 milhões de reais para o projeto de revitalização do rio São Francisco, a partir do segundo semestre de 2017, o que, para o senador, “não dá nem para começar”, embora o Ministério do Meio Ambiente diga que “O Programa de Revitalização da Bacia do rio São Francisco, foi criado em 2004 no âmbito do Ministério do Meio Ambiente - MMA, em parceria com o Ministério da Integração Nacional e outros 14 Ministérios. Entre os principais parceiros, destacam-se a Codevasf, a ANA, o Ibama, o ICMbio, a Funasa/MS, Universidades Federais e o CBH-SF.”

Ou seja, a preocupação dos políticos que já dirigiram este país e os que estão no poder, é comemorar a transposição, fazer coro e festa com os moradores sofridos pela estiagem da região e a revitalização que envolve tantos ministérios, cujo programa foi criando antes do da transposição e tem prazo de validade para 20 anos, parece adormecido no leito vazio e assoreado do Velho Chico sem que se saiba, com absoluta segurança até quando estas águas benfazejas vão arrancar sorrisos e sonhos dos nordestinos. Porque os olhos que vêem as águas abençoando a terra ressequida, estão, na verdade, olhando é para as eleições de 2018.

Vamos comemorar sim, sem esquecer de olhar para o amanhã, para as carências do rio e agressões que continua sofrendo e continuar a luta, incansável para investimentos sólidos no projeto de revitalização deste grande rio, que já foi chamado pelos índios de Opara, rio-mar, pela sua grandeza e imensidão de águas.

Que bom que as águas do Velho Chico chegaram ao Cariri Paraibano. Melhor ainda que elas permaneçam sempre por ali mas para isso, senhores do poder, cuidem com urgência emergencial, agora, já, da revitalização do nosso maior patrimônio, o São Francisco, rio da unidade nacional!

Enviar por e-mail

Insira até cinco e-mails, separados por vírgula





Deixe um comentário






O comentário será enviado para um moderador antes de ser publicado.