• Tamanho da letra:
  • -A
  • +A

Início » Especiais

20.03.2016 | 16:53

 Compartilhe:

Chesf, redenção do Nordeste e do Brasil, há 68 anos

Paulo Afonso, a mãe da Chesf. A Chesf, mãe de Paulo Afonso

Texto: Antônio Galdino. Fotos: Antônio Galdino, Acervo Chesf, Arquivo Folha Sertaneja e Internet

NA SEMANA DO ANIVERSÁRIO DE 68 ANOS DA CHESF, VÁRIOS EVENTOS FORAM REALIZADOS EM PAULO AFONSO,

divulgação
Prédio sede da Chesf, no Recife

Prédio sede da Chesf, no Recife

 Criada pelos Decretos-Leis 8.031 e 8.032, assinados pelo Presidente Getúlio Vargas em 3 de Outubro de 1945, por iniciativa do engenheiro nordestino, Apolônio Jorge de Farias Sales, de Altinho/PE, mas só organizada em 15 de Março de 1948, com a nomeação de sua primeira diretoria, tendo como Presidente o engenheiro Antônio José Alves de Souza, a Chesf viveu em Paulo Afonso intensas atividades da semana do seu aniversário de 68 anos.

Isso não acontecia já há muitos anos mas Paulo Afonso, chamada pelo atual presidente, o engenheiro José Carlos Miranda, de “o coração da Chesf”, voltou a merecer a atenção da diretoria da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco, orgulho de todos os chesfianos da ativa e aposentados.

 

Foto: Antônio Galdino
Petrônio Nogueira, Augusto Cezar, Regivaldo Coriolano e Flávio Motta

Petrônio Nogueira, Augusto Cezar, Regivaldo Coriolano e Flávio Motta

As comemorações aos 68 anos da Chesf começaram na segunda-feira, 14/03, quando a Câmara Municipal de Paulo Afonso entregou ao Administrador Regional da empresa em Paulo Afonso, Augusto Cezar, Moção de Aplausos de autoria do vereador Regivaldo Coriolano, aposentando da Chesf. Na ocasião, além de vereadores foram oradores do evento, Augusto Cezar, Flávio Motta, Gerente Regional de Operação e o professor Antônio Galdino, convidado pelo vereador Regivaldo para falar em nome dos aposentados chesfianos.

Severino Silva - CER/Chesf
José da Costa, Pres. da Eletrobrás

José da Costa, Pres. da Eletrobrás

Na terça-feira, dia 15/03, chegaram a Paulo Afonso todos os diretores da Chesf, os membros do Conselho de Administração da empresa e o presidente da Eletrobrás, José da Costa. Todos participaram de dois eventos neste dia. O hasteamento de grande bandeira do Brasil, cujo mastro foi colocado junto da torre iluminada da Chesf, conhecia como “Mãe Velha”, ao lado do Memorial Chesf.

Foto: Antônio Galdino
Homenagem ao Dr. Gadelha

Homenagem ao Dr. Gadelha

 Momento marcante aconteceu no início da noite quando todos participaram da solenidade em homenagem ao chesfiano pioneiro Hélio Gadelha de Abreu cujo prédio da Engenharia Civil da GRP, construído pelo seu filho Roberto Muricy, recebeu o seu nome. Ali estavam sua viúva, D. Maria Anaide, que também foi enfermeira do Hospial Nair Alves de Souza onde nasceram seus oito filhos, todos presentes à esta solenidade, organizada por Flávio Motta, Gerente Regional de Operação da Chesf.

Foto: Severino Silva - CER/Chesf
Chesf - 68 anos. Comemoração no Clube Paulo Afonso

Chesf - 68 anos. Comemoração no Clube Paulo Afonso

Ainda nesse dia, todos foram para o Clube Paulo Afonso – CPA – para um encontro de confraternização dos empregados e onde foram homenageados 36 chesfianos com medalhas de 10, 20, 40 e dois deles com placas pelos 50 anos de serviços prestados à hidrelétrica do São Francisco, Adonel, da GRP e Pedro Freitas, da APA.

No dia 16 de Março, quarta-feira, foi realizada em Paulo Afonso, a primeira reunião do Conselho de Administração da Chesf, com a participação de toda a diretoria da empresa e ainda do presidente da Eletrobrás, no auditório do Serviço Técnico Operacional (SPTO) – CFPPA, da Chesf em Paulo Afonso.

Severino Silva - CER/Chesf
Augusto Cezar - Adm P.Afonso, Helder Falcão - Dir. Administrativo, José Miranda - Presidente e Flávio Motta, Ger. Operação

Augusto Cezar - Adm P.Afonso, Helder Falcão - Dir. Administrativo, José Miranda - Presidente e Flávio Motta, Ger. Operação

 Em palestra realizada para os funcionários da empresa da regional Paulo Afonso, no Memorial Chesf na tarde do dia 16 de março, o presidente José Carlos Miranda repetiu o que dissera em outros momentos “Paulo Afonso é o coração da Chesf” e lembrou que “o primeiro presidente da hidrelétrica, Antônio José Alves de Souza deixou o seu coração sepultado ao pé do seu busto no monumento que marca o 1º Decênio da Chesf, no Parque Belvedere” assim como lembrou do que disse o presidente da Eletrobrás José da Costa ao falar aos chesfianos no Clube Paulo Afonso: “Como disse o presidente da Chesf, Paulo Afonso é o coração desta empresa, assim como Sobradinho é o seu pulmão e os chesfianos e chesfianas são a alma desta grande empresa”.

Chesf, redenção do Nordeste e do Brasil, há 68 anos

Em 15 de Março de 2016, comemora-se os 68 anos da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco. Vem sendo assim há muitos anos.
Na verdade, a Chesf foi criada pela ousadia sertaneja de Apolônio Sales, pernambucano de Altinho que dá nome à principal Avenida de Paulo Afonso e a uma das usinas hidrelétricas do complexo de Paulo Afonso, à margens do Lago e do rio Moxotó, que divide os Estados de Alagoas e Pernambuco.

Acervo Memorial Chesf
Engenheiro Apolônio Sales, criador da Chesf

Engenheiro Apolônio Sales, criador da Chesf

 No dia 03 de Outubro de 1945, o então Ministro da Agricultura, o engenheiro agrônomo Apolônio Jorge de Farias Sales entregou nas mãos do presidente Getúlio Vargas, os Decretos-Leis Nºs. 8.031 e 8.032, que criavam a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco e definiam o seu capital, a sua área de atuação e abrangência de domínio.

Arq. Folha Sertaneja
Presidente Getúlio Vargas

Presidente Getúlio Vargas

O presidente Vargas assinou estes dois Decretos-Leis mas, ocorreu que, 26 dias depois, no dia 29 de Outubro, o presidente Getúlio Vargas é deposto por um golpe militar.

Com o cargo vago foi necessário que ele fosse ocupado pelo Presidente do Supremo Tribunal Eleitoral, José Linhares, que governou o Brasil entre 30 de outubro de 1945 e 31 de janeiro de 1946, quando tomou posse o presidente General Eurico Gaspar Dutra, eleito pelo Partido Social Democrático - PSD com 55,39% dos votos.

Arq. Folha Sertaneja
Presidente Eurico Gaspar Dutra

Presidente Eurico Gaspar Dutra

 Dutra ficou no cargo até 1951 quando Vargas voltou a governar o Brasil, eleito pelo voto popular pelo Partido Trabalhista Brasileiro – PTB.
Somente depois de mais de dois anos do governo Dutra, os Decretos da criação da Chesf saíram das gavetas do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro.

Por esse tempo, acabava a Segunda Guerra Mundial e ainda pairava pelo mundo um certo clima de insegurança e de desconfiança, um clima de “confiar, desconfiando” e uma das desconfianças do governo militar brasileiro era nações estrangeiras, com já acontecera antes com os holandeses em Pernambuco e em face da forte presença norte-americana que durante a guerra manteve bases militares importantes em Natal, voltassem a ocupar terras estratégicas para eles na região Nordeste do Brasil.

Nesses anos, o rio São Francisco era a “estrada, o caminho das águas que unia o Nordeste ao Sudeste e cruzava 5 Estados brasileiros, desde o Oceano Atlântico a Minas Gerais, passando pelos Estados de Alagoas, Sergipe, Pernambuco e Bahia.
E havia a estratégica região das cachoeiras de Paulo Afonso, na divisa de quatro desses cinco Estados – Bahia, Alagoas, Sergipe e Pernambuco.

Acervo Memorial Chesf
Usina Angiquinho, ainda funcionando (1960)

Usina Angiquinho, ainda funcionando (1960)

 Some-se a isso o fato de que, ainda no início o Século XX, no ano de 1913, menos de quarenta anos atrás, o cearense Delmiro Augusto da Cruz Gouveia construíra ali, nas margens da Cachoeira de Paulo Afonso, usando tecnologia europeia – inglesa e francesa – um Usina Hidrelétrica que foi pioneira na região e promoveu o desenvolvimento de uma indústria de linhas de cozer do próprio Delmiro Gouveia.
Mais importante que o tamanho da geração daquelas máquinas da Usina Angiquinho foi descobrir-se a grandiosidade da capacidade dessa geração de energia elétrica, a partir da força das águas nesta região.

Revista O Cruzeiro 07/07/1947
Presidente Dutra e comitiva na Cachoeira de Paulo Afonso em Julho de 1947

Presidente Dutra e comitiva na Cachoeira de Paulo Afonso em Julho de 1947

 Por isso que o Presidente Dutra decidiu trazer uma comitiva do governo e políticos do Brasil para visitar a Cachoeira de Paulo Afonso no dia 07 de Julho de 1947. O assunto mereceu extensa reportagem publicada pela Revista O Cruzeiro em sua edição do dia 12/07/1947 que dizia: “Não se tratou de uma visita de rotina. O chefe do Executivo, tendo um dispositivo constitucional a cumprir, decidiu-se a ir, pessoalmente, verificar as diversas fases de um problema nacional , que a ele se impusera inesperadamente, quando Ministro da Guerra, em um dos seus aspectos mais graves, a defesa nacional”.

Acervo Memorial Chesf
Eng. Antônio José Alves de Souza, primeiro presidente da Chesf

Eng. Antônio José Alves de Souza, primeiro presidente da Chesf

 Logo depois dessa visita, ainda no segundo semestre de 1947, o Ministério da Agricultura, a quem cabia o controle das águas naquele tempo, criou um grupo de trabalho para organizar a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco. O grupo de trabalho foi coordenado pelo engenheiro Antônio José Alves de Souza que em 15 de Março de 1948 foi indicado para ser o primeiro presidente desta Companhia, a Chesf.

Os primeiros tempos da Chesf na região foram muito difíceis. "Isso era um deserto, caatinga, tudo precisava vir de fora", disse Bret Cerqueira Lima, que chegou à região no início de 1950, o que também confirma em depoimentos pioneiros como Sebastião das Neves, mestre carpinteiro que chegou por aqui ainda em meados de 1948 e construiu as primeiras casas de madeira, próximas à Casa de Hóspedes, para hospedar a diretoria da Chesf; Euclides Ribeiro, que começou a trabalhar em Fevereiro de 1949; José Vitorino Diniz, pai do radialista Antônio José Diniz, que ajudou no fechamento do rio, levando pedras nas koerings que dirigia e afirma que passou a pé pelo leito seco do rio, em Outubro de 1954,(hoje ele está com 92 anos de idade), todos eles falam como isso aqui era apenas caatinga, sem nada...

A Chesf era uma grande empresa, com uma missão federal. Construir uma grande usina hidrelétrica utilizando as águas volumosas e velozes do rio São Francisco ao tempo em que o governo brasileiro marcava presença nesta área de grande importância estratégica.
A União comprou então as terras que pertenciam à empresa Agro Fabril Mercantil que iam desde a Usina Angiquinho, no território alagoano até a Tapera de Paulo Afonso, hoje Bairro Centenário, na margem baiana do rio São Francisco.

Acervo Memorial Chesf
Fechamento do rio São Francisco em Outubro de 1954

Fechamento do rio São Francisco em Outubro de 1954

 E para construir a usina e a barragem Delmiro Gouveia, antecedido das construções das ensecadeiras para o fechamento do rio, precisou fazer “uma cidade, a cidade da Chesf, com cerca de 2 mil edificações entre residências, escritórios, escolas, igreja, mercado público, clubes sociais, restaurantes, no lado baiano e, em consequência, nasceram, do lado baiano a Vila Poty e no lado alagoano a Vila Zebu. Os nomes eram originados das marcas do cimento utilizado em grande quantidade nas obras, cujos resistentes sacos vazios eram utilizados na cobertura e nas paredes das casas de taipa que iam sendo construídas pelos que chegavam com o objetivo de trabalhar nas construções da Chesf.

Segundo relato do pioneiro Euclides Ribeiro, recentemente falecido, “chegou a se gastar mais de 3 mil sacos de cimento por mês e esses sacos vazios eram vendidos para a própria fábrica – Poty ou Zebu – e com essa renda pagava-se a mão de obra para a construção da Casa da Criança Pobre (Casa da Criança I) que recebeu 890 alunos em suas 7 salas de aulas em 1962. Foi a segunda escola construída na Vila Poty, depois da Escola Evangélica Antônio Balbino, construída pelo Professor Gilberto Oliveira e João Cartonilho.

Acervo Memorial Chesf
Escola Eng. Adozindo Magalhães de Oliveira

Escola Eng. Adozindo Magalhães de Oliveira

 A construção de escolas pela Chesf, prioritariamente para os filhos dos empregados da empresa, e a formação da mão de obra especializada, mostram, por exemplo, a preocupação da diretoria da Chesf com o social, conforme revela o Presidente Alves de Souza no primeiro livro escrito sobre Paulo Afonso, como esse nome, Paulo Afonso, uma espécie de relatório da empresa, publicado em 1954, onde ele fala, a partir da sua página 40, dos Serviços Assistenciais, Culturais e Sociais.

Acervo Memorial Chesf
Pres. Café Filho inaugura a primeira usina hidrelétrica de Paulo Afonso

Pres. Café Filho inaugura a primeira usina hidrelétrica de Paulo Afonso

A Usina Paulo Afonso foi inaugurada oficialmente em 15 de Janeiro de 1955 por um presidente nordestino, João Café Filho, nascido em Natal. Mas, desde Dezembro/1954, a energia elétrica da Chesf já chegara a Recife e em Janeiro/1955, chegava a Salvador. A partir daí a história do Nordeste começou a mudar, radicalmente.

Pode-se dizer sem medo de errar que há dois Nordestes: o de antes e o de depois da Chesf.
De lá para cá, outras usinas foram sendo construídas nesta região. E também a região próxima passou por mudanças significativas. Vários municípios, inclusive Paulo Afonso, foram criados à sombra da Chesf. Outros sofreram mudanças radicais, foram inundados, reconstruídos com a criação de grandes reservatórios pela hidrelétrica.

Paulo Afonso, a mãe da Chesf. A Chesf, mãe de Paulo Afonso

Foto: João Tavares
Vista aérea da Ilha de Paulo Afonso e Usinas da Chesf

Vista aérea da Ilha de Paulo Afonso e Usinas da Chesf

 A dicotomia mãe-Chesf, Chesf-mãe tem sentido se levarmos em conta que Paulo Afonso foi o berço da Chesf, ao abrigar em seu solo, na verdade nas entranhas dos seus paredões de granito, as primeiras e depois outras usinas importantes desta empresa, dez anos antes de sua emancipação, quando a região ainda se chamava Forquilha.
Por seu turno, a Chesf passou a ser a mãe do município de Paulo Afonso porque ele só veio a existir por causa da presença e dos grandes investimentos da Chesf na região.
Assim como Paulo Afonso, muitas cidades na região passaram de pequenos e insignificantes povoações a municípios a partir do surgimento da Chesf e suas usinas hidrelétricas instaladas e abençoadas pelas águas do rio São Francisco.

Hoje a Chesf deixou de ser uma empresa regional, a maior do Nordeste e se tornou uma das maiores do Brasil.

Foto: João Tavares
Usinas PA I, II e III

Usinas PA I, II e III

Acervo Memorial Chesf
Engenheiro Marcondes Ferraz e operários em frente à Usina Paulo Afonso

Engenheiro Marcondes Ferraz e operários em frente à Usina Paulo Afonso

 Da pequena Usina Paulo Afonso, inaugurada em 1955, com a produção total prevista de 180 megawatts que alguns de visão curta achavam ser energia demais, “suficiente para abastecer o Nordeste até o ano 2000”, como diziam, hoje produz mais de 10.700 megawatts de energia em 14 usinas hidrelétricas e uma termelétrica e já investe pesado na produção de energia eólica e solar e na construção de outras grandes usinas em outras regiões como as Usinas de Jirau e a de Belo Monte, na região Norte.

divulgação
Torres e linhas de transmissão de energia

Torres e linhas de transmissão de energia

As primeiras linhas de transmissão deram lugar a uma extensa malha de quase 20 mil quilômetros que cobre toda a região.

Se, a partir de 1955 passaram a coexistir dois nordestes, o de antes e o de depois da Chesf, esse fenômeno também se espalhou nas regiões mais periféricas das primeiras usinas de Paulo Afonso.

Acervo Memorial Chesf
Operários pioneiros da Chesf cavando túneis para as usinas hidrelétricas

Operários pioneiros da Chesf cavando túneis para as usinas hidrelétricas

 Elas foram instaladas nas entranhas dos paredões de granito, cavadas com muito trabalho, suor e sangue de nordestinos, sertanejos valentes, fortes como já os definia Euclides da Cunha. O seu trabalho, que lhes gerou o apelido de "cassacos", fez história e mais que isso, mudou a história do Nordeste. 

 A empresa, que é orgulho de seus pioneiros trabalhadores e daqueles que decidiram continuar trabalhando, mesmo com até cinquenta anos de serviços a ela prestados, deve continuar sendo o orgulho de jovens que nela começam a trabalhar agora.

Os que trabalham na Chesf são chamados de chesfianos e os que dela saíram, aposentados, há muitos anos ou mais recentemente, não aceitam serem chamados de ex-chesfianos e dizem: “ex-funcionários, sim. Ex-chefianos, nunca. Uma vez chesfianos, sempre chesfianos”.

 

Enviar por e-mail

Insira até cinco e-mails, separados por vírgula





Deixe um comentário






O comentário será enviado para um moderador antes de ser publicado.