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02.12.2016 | 01:47

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CONTRA OU A FAVOR DA VAQUEJADA?

Climério é professor de Língua Portuguesa do EREM de Itaparica, em Jatobá, PE

Climério Lima

divulgação
Vaquejada em debate

Vaquejada em debate

Como professor de Língua Portuguesa da Escola de Ensino Médio Erem de Itaparica, em Jatobá, PE, vez por outra sou perguntado sobre a minha opinião em temas dos mais variados. Às vezes tenho um ponto de vista, outras, digo que não li nem analisei o assunto e prometo uma reposta pra depois.

Nem sempre cumpro essa promessa, porque, mesmo me interessando e lendo, tenho dificuldades de formar uma opinião sobre determinados temas, ou ao tomar, já estou ultrapassado. O mundo tem andado bem depressa e os temas fugazes demais. “O futuro não é mais como era antigamente” diria Renato Russo.

Mas, por ser de origem rural com muito orgulho e ter minha infância rabiscada no Sertão Nordestino, além de ser filho de Novinho Maroca, um exímio vaqueiro afamado daquela região, uma pergunta me inquietou muito. – Professor o senhor é contra ou a favor da vaquejada? Perguntou certo aluno.
Deformado pela tosca vivência e artificialidade da urbanidade, de pronto pensei: Sou totalmente contra! Mas, antes de verbalizar, lembrei daquela saída básica de sempre e disse: - Vou pensar melhor a respeito.

Dias depois, cheguei na sala de aula e bradei de pronto: SOU A FAVOR DA VAQUEJADA E CONTRA OS MAUS TRATOS COM OS ANIMAIS.
É engraçado isso. Quando a mídia, porta voz do Brasil Oficial, descrito por Machado de Assis, quer, ela cria uma espécie de resposta padrão pra tudo.

Porque proibir a vaquejada, quando podemos pensar e criar novas formas dessa prática que é tradição e cultura SIM do povo sertanejo? A bela figura do vaqueiro, os chapéus de couro que desfilaram por esse país com Luiz Gonzaga, Dominguinhos e tantos outros, por exemplo, são alguns dos maiores patrimônios do povo nordestino e brasileiro.

É fácil adotar rapidamente uma resposta “politicamente correta” SOU CONTRA, sem pensar numa verdadeira indústria geradora de trabalho e renda que se formou em volta das vaquejadas. São artistas, músicos, empresários, cuidadores de animais, comércio de ração, alimentos e bebidas, dentre outros.

Aliás, tem uma coisa que admiro muito no verdadeiro vaqueiro; Ele adora o forró de vaquejada, canta as toadas, valoriza o seu estilo e se orgulha de ser “de gado”, de ser nordestino. Nunca vi um vaqueiro cantando funk, fazendo os bizarros quadradinhos de 4, 8 ou sei lá até que número essa desgraça vai, nem usando aquelas roupas que acho de péssimo gosto ou fazendo da cabeça mostruário para cortes de cabelo cada vez mais ridículos.

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Vaquejada - arte de Mestre Vitalino, de Caruaru

Vaquejada - arte de Mestre Vitalino, de Caruaru

 Agora a sociedade tem obrigação de evitar e punir os supostos maus tratos aos animais envolvidos nas vaquejadas, claro que sim e os vaqueiros concordam com isso. Que tal criarmos novas regras? Porque não colocamos um acessório no animal, com pequenas luzes, que não o machuquem, evidentemente, com um dispositivo (botão) na parte superior traseira do animal, que acenda ao toque do vaqueiro, o que deve ocorrer dentro da faixa, evitando puxar o rabo e até derrubar o animal? Então diríamos ILUMINOU ou ACENDEU BOI! E o boi estava valendo! Isso pode parecer bizarro, até infantil, mas é sugestão.

Podemos normatizar cuidados especiais com os animais envolvidos nos eventos, que só possam ser realizados com autorização prévia e fiscalização das prefeituras. Verificar como anda a vacina e a alimentação desses animais. Choques nos bois, na partida do curral, nem pensar, mas outros cenários são possíveis se quisermos educar o nosso povo para uma nova consciência.
A vaquejada deve ser regulamentada, jamais proibida. Essa proibição vai deflagrar muitos eventos ilegais e aí, sim, os maus tratos não podem ser evitados.

Em vez de acabar com a vaquejada, porque nossas autoridades não batem os seus martelos de ouro contra o desemprego que assusta, à falta de médicos nos hospitais, a desvalorização dos professores em contraponto aos altos salários que os políticos recebem.

Proibamos a fome, a violência e a morte de inocentes nos bolsões de pobreza desse país. Aliás, penso que acabar com a vaquejada sob o argumento de que ela não é esporte, muito menos patrimônio cultural do povo nordestino e brasileiro ou que pretendem evitar maus tratos aos animais me parece um discurso bem vazio. Se fosse assim, porque as elites permitem os brutais eventos de MMA e UFC, essa recriação tosca e desnecessária dos espetáculos de morte dos antigos gladiadores? Pior ainda, teimam em chamar essa carnificina milionária de esporte. Esses eventos sim, são exemplos escancarados de maus tratos aos animais e com dolo, para saciar a fome de uma plateia cada vez mais sedenta por violência explícita autorizada e sangue, da qual não faço parte.

Por tudo isso, disse ao meu aluno. Pode dizer a quem quiser que sou nordestino, sertanejo, contra os maus tratos aos animais e MUITÍSSIMO A FAVOR DA VAQUEJADA.

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