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10.12.2016 | 15:03

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A alegria do velho professor...

(publicada no jornal Folha Sertaneja - Edição Nº150, de 31/08/2016)

Antônio Galdino da Silva

divulgação
Poeta baiano Antônio de Castro Alves

Poeta baiano Antônio de Castro Alves

 Vivemos tempos modernos, até modernos demais, quando vemos que a tecnologia da comunicação invade de tal forma a vida dos adolescentes que muda, brutalmente, o seu comportamento, o diálogo, a relação com os pais e familiares e amigos.

Celular em punho, modelos cada dia mais avançados, vivem alheios ao mundo à sua volta mas conhecem intensamente o que se move pelo mundo a fora, tão forte é o seu apego, ao mundo virtual, a quem se integram inteiramente e podem ter nas mãos a todo instante.
Esse é o retrato, instantâneo como uma selfie, esse neologismo que não sai da boca dos jovens e seus modernos celulares faz-tudo, inclusive enviar e receber telefonemas.

Dia destes, o velho professor, inquieto com estas modernagens que tem afastado os jovens do convívio presencial e dos diálogos entre os mais próximos, da própria família, encontrou casualmente com três adolescentes que se encaixam inteiramente nesse perfil.

O professor e estas jovens estudantes, duas de quatorze e uma de quinze anos, duas estudantes do Colégio Boa Ideia e uma estudante do Colégio Carlina, se encontraram na entrada de uma loja de departamentos da cidade.
As jovens, alegres, não portavam à vista, nenhum aparelho celular e a conversa flagrada pelo velho professor foi:
- Vamos ver os livros. Ver se tem alguma novidade...

Dupla surpresa total! Jovens, nesta idade, sem celulares nas mãos ou no ouvido e ainda querendo ver livros... Que coisa boa!
O velho professor, feliz da vida, tratou de estabelecer um diálogo com estas estudantes. Onde estudavam, em que série estavam... Duas eram do 9º ano do Ensino Fundamental e a outra fazia o 1º ano do Ensino Médio.

E se conversou sobre seus pais, quem eram os seus professores de Português, de que disciplina gostavam mais... Foram unânimes em responder: Português.

Também disseram, ao serem questionadas, se não tinham o hábito de viver trocando mensagens pelo celular e elas responderam na hora que também faziam isso mas que gostavam mesmo era de ler e falaram de muitos livros que já tinham lido, alguns dos clássicos da literatura brasileira e outros, de autoajuda, romances e histórias de vida de adolescentes como elas.

Conversavam, elas um tanto tímidas e seguiram juntos, o velho professor e estas estudantes, até a sessão de livros.
Ali, o professor descobriu que uma delas faria aniversário dentro de alguns dias e ele tomou a seguinte decisão.
- Cada uma de vocês pode escolher um livro, qualquer um, e depois uma vai ler o livro da outra. Assim, é como se ganhassem três livros.

Entre meio envergonhadas, como disseram, e alegres, venceu a alegria delas que escolheram, pacientemente, com segurança como fazem os que tem a leitura como um hábito de muitos anos, o livro que mais lhes agradou e saíram da loja felizes da vida, saltitantes como é de se esperar em jovens dessa idade e deixaram o velho professor refletindo sobre esse encontro inusitado.

Que bom, pensava ele, que o mundo ainda não está de todo perdido e que a leitura e o bom e velho diálogo familiar ainda pode reaproximar pessoas que a comunicação virtual tem afastado do convívio diário e salutar.
Ah, que bom que ainda existem outras prioridades além da linguagem cifrada, rápida, quase um código novo da comunicação moderna. Ainda há tempo para o diálogo e a conversa sempre gostosa e instigante das páginas de um bom livro!

E o velho professor, hoje aposentado, mas sempre professor, lembrando seus tempos de sala de aulas, pensou naquilo que disse Monteiro Lobato:
- “Um país de faz com homens e livros.”
Ou na sempre atual poesia de Castro Alves que escreveu no seu poema O Livro e América:
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar.
E saiu da loja, leve e muito feliz depois desse diálogo com estas adolescentes...

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