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09.04.2017 | 00:49

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Duas histórias de mulheres extraordinárias: Inocência e Luciene

Elas estão no www.joaodesousalima.blogspot.com e no G1.com

Antônio Galdino, com João de Sousa Lima e Artur Lira

Ainda como reflexo do mês Março/Mulher em que se destacou a presença feminina e até porque sempre pensei e defendi que ‘da mulher são todos os dias’, encontrei e compartilho as histórias de duas mulheres extraordinárias, cada uma a seu modo e por isso mereceram justo espaço na mídia.

Uma delas é D. Inocência Ferreira de Jesus, prima do cangaceiro Gato, do bando de Lampião. D. Inocência mora em Paulo Afonso e vai completar em Julho, 111 anos de idade. Foi o que publicou o escritor João de Sousa Lima, pesquisador e autor de quase 10 livros sobre o cangaço, no blog www.joaodesousalima.blogspot.com.

A outra mulher, paraibana, sertaneja de fibra, passou muitos anos de sua vida catando latinhas, ao lado do marido e com esse esforço grandioso conseguiu fazer a sua faculdade e formou-se como Assistente Social em uma Faculdade particular de sua cidade, Souza, na Paraíba. É a história de Luciene Gonçalves que mereceu matéria de destaque no Portal G1, da Globo.

Destaques merecidos. Uma pela longevidade, passando pelas agruras das secas e as dificuldades do sertão nordestino. A outra, pela determinação de buscar, da forma mais humilde, os recursos para alcançar o sonho de fazer o seu curso superior.
Parabéns a Luciene Gonçalves e a D. Inocência Ferreira de Jesus pelo seu exemplo de vida para a atual e as novas gerações. (Professor Galdino)
Inocência Ferreira de Jesus, prima do cangaceiro Gato, vive em Paulo Afonso, aos 111 anos de idade

acervo João de Sousa Lima
D. Inocência, 110 anos

D. Inocência, 110 anos

 

 Inocência Ferreira de Jesus, prestes a completar 111 anos de idade (nascida em 15 de julho de 1906 e ainda lúcida tem muitas histórias para contar.
Ela é prima legítima do cangaceiro Gato, o mais perverso cangaceiro do bando de Lampião.

acervo João de Sousa Lima
João de Sousa Lima com D. Inocência

João de Sousa Lima com D. Inocência

Os pais de Inocência eram Cícero Pereira Leite e Teodora Vieira de Jesus. Ela hoje com 111 anos de idade revela que sente saudades da antiga Barroca (povoação as margens da cachoeira de Paulo Afonso, sendo uma das primeiras localidades para acolher escravos fugidos dos aprisionamentos dos perversos bandeirantes paulistanos).

Mesmo tendo nascido próximo a Serra do Retiro, confessa que na antiga Barroca ficou sua felicidade. Em seu relato, falando que já conheceu o Brasil quase todo, nunca esqueceu seu pedaço de chão. Inocência quebrava pedras e as transformava em britas para vender. Trabalhava ela e a filha Maria Milda Lima, arranchadas embaixo de latadas ou ranchos cobertos com palhas. À noite continuavam o trabalho diante da luz disforme dos candeeiros.
Inocência é prima legítima do cangaceiro Gato.

Seu tio Antônio de Rita e seu filho Ulisses Grande, moradores do povoado Salgadinho, eram coiteiros de cangaceiros. Em uma das viagens de Inocência, ela e a prima Nenê, selaram um burro e amarraram dois caçuás, montaram o animal e foram buscar algumas melancias na casa do tio Antônio de Rita. Quando chegaram a casa do tio encontraram os cangaceiros Gato, Corisco Bananeira, Volta Seca e muitos outros. Uma grande farra estava acontecendo na casa do tio. Tempos depois, quando a polícia expulsou os moradores daqueles sítios, os forçando a vir morar em Santo Antônio da Glória e na Barra, o perverso tenente Douradinho, passando na Barra, prendeu o Antônio de Rita e o crucificou, pregando suas mãos em uma madeira. Quando o policial se preparava para matar o sertanejo, Inocência correu, se ajoelhou aos pés do tenente e pediu para que ele não fizesse aquilo com seu tio pois ele era inocente. Diante do pedido da jovem, o tenente, acreditem, libertou o moribundo rapaz.
(Texto de João de Sousa Lima em www.joaodesousalima.blogspot.com)

Mulher paga faculdade com material reciclável e leva latinhas para formatura

'Sou capaz de largar tudo para ir catar latinha na rua', diz sucateira que se formou em Serviço Social.
(Por Artur Lira, G1 Paraíba - 04/04/2017)

Foto: Artur Lira G1.com/PB
Luciene Gonçalves em sua formatura

Luciene Gonçalves em sua formatura

 As fotos e vídeos da paraibana Luciene Gonçalves descendo as escadas no seu baile de formatura carregando latinhas tomaram as redes sociais desde o sábado (1º). Se as imagens já chamam a atenção, a história de vida da sucateira de 35 anos serve como exemplo de dedicação e superação.
A descida com latinhas não era em vão. Foi a forma que ela encontrou para homenagear o marido, também sucateiro. Ela se formou em Serviço Social pagando os quatro anos de faculdade com o dinheiro que conseguia com a venda de reciclagem. Ela se formou em uma faculdade particular de Sousa, no Sertão paraibano, onde mora com a família.

ESTUDOS INTERROMPIDOS

Mãe aos 20 anos, Luciene terminou o ensino fundamental e deixou os planos de estudar de lado para trabalhar e ajuda a sustentar a família. Atualmente ela tem duas filhas, sendo uma de 14 anos e outra de 12.
Mulher paga faculdade catando latinhas e leva material reciclável para formatura na Paraíba
A profissão de sucateiros do casal foi herdada do avô de Pedro Filemon, 35 anos, o marido de Luciene. “O avô do meu marido tinha um depósito de reciclagem. Com um tempo a gente percebeu que ele [o avô] já estava ficando cansado, por causa da idade, e decidimos começar a entrar no negócio”, disse ela.
Quase dez anos após concluir o ensino médio, longe dos livros e dedicando-se apenas ao trabalho, Luciene decidiu voltar aos estudos e realizar o sonho da graduação. A escolha do curso não foi tão difícil.
“Serviço Social foi feito pra mim. Eu gosto muito de ajudar as pessoas. E depois que entrei no curso e fiz estágios, tive a certeza de que aquilo foi feito pra mim”, diz.

Foto: Artur Lira G1.com/PB
Luciene Gonçalves em sua formatura, com o marido

Luciene Gonçalves em sua formatura, com o marido

SONHO DA FAMÍLIA

A sucateira não sonhou com a graduação sozinha. Quando decidiu fazer o curso ela também estimulou o marido a estudar junto para tentar uma graduação. Ele escolheu o curso de administração e também entrou na faculdade na mesma época que Luciene. Os dois foram aprovados na mesma seleção.
“Minha família me estimulou e eu também incentivei meu marido. Passamos noites e noites estudando e treinando redação. Não foi fácil, depois de tanto tempo voltar a estudar”, conta ela.
Durante os quatro anos de curso, conseguir o dinheiro das mensalidades exigiu esforço e sacrifício. Cada centavo era contado. Conciliar trabalho, família e estudo foi outro desafio. Mas a situação ficou complicada mesmo no último ano de curso. Há nove meses, o pai de Luciene começou a enfrentar problemas renais e passou a fazer sessões de hemodiálise.
Marido de Luciene abriu mão do baile de formatura para ver mulher comemorar o diploma (Foto: David Silva/Alian Eventos)
“Eu também tive que organizar o tempo para levar meu pai para as sessões, todas as semanas, na terça-feira, quinta-feira e sábado. Mas eu nunca desanimei. Às vezes chegava na sala de aula chorando, mas também encontrei amigas que foram como irmãs, que me apoiaram. Essa foi a época mais difícil, pois ocorreu quando eu já estava fazendo meu trabalho de conclusão de curso”, disse Luciene.

FESTA EXCLUSIVA PARA LUCIENE

Luciene e Pedro entraram na faculdade juntos e terminaram o curso juntos, mas apenas Luciene teve festa de formatura. “Meu marido abriu mão de fazer a formatura dele para que fosse feita a minha. Este também foi mais um motivo para homenagear ele. Eu não fiz isso para aparecer. Eu quis homenagear e confesso que estou um pouco surpresa com a repercussão que está tendo”, conta ela.
Agora formada, Luciene disse que deseja um emprego na área, mas confessa que ama trabalhar como sucateira. “Por mim, eu trabalhava de dia com sucata e de noite como assistente social. Eu quero crescer na vida, mas nunca esquecer minhas origens. E se um dia for necessário eu sou capaz de largar tudo pra ir catar latinha na rua. Não tenho vergonha, pois foi com o dinheiro da reciclagem que eu sustentei minha família”, conta ela.
Exemplo de vida e inspiração para as filhas que já estão concluindo o ensino médio, Luciene disse que seu grande segredo é não perder tempo, reclamando dos problemas da vida. “E eu sempre digo ao meu marido que não reclame, pois quem reclama não sai da lama. Eu tinha que ser alguém na vida, não ser só sucateira, mas ter um curso superior pra dar exemplo para as minhas filhas. Tem gente que trabalha em escritório e diz que não tem tempo para estudar. Eu trabalho dentro da sujeira e pra mim não faltou garra pra terminar meu estudos. Tem gente que reclama de barriga cheia”, disse Luciene.
(Por Artur Lira, G1 Paraíba - 04/04/2017)

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