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28.04.2017 | 16:57

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Paralização geral

A paralização é a voz dos que não têm vez

Francisco Nery Júnior

site PA4
Paralização em Paulo Afonso-BA

Paralização em Paulo Afonso-BA

  

 Há que se parar. A paralização é, indiscutivelmente, a voz dos que não têm vez. Sem paralização, o pêndulo cai mais para baixo, como sempre, do lado mais fraco. Estamos em época de flexibilização das leis trabalhistas e de reforma dita imperiosa da Previdência Social. De fato, a corda já arrebentou impiedosamente em alguns lados mais fracos. Não importa em que patamar e por quantos anos o segurado – segurado?! – pagou do seu suor para o INSS. O cálculo é realizado de 1997 para cá, tirando a média daí para cá, solução do senhor Fernando Henrique Cardoso que se refestela, como marajá da América Latina, no seu belo apartamento de Paris. Salvou o senhor presidente de então, filho de general, o sistema por algum tempo, negando os direitos dos mais fracos. Se pelo menos tivesse considerado a média dos trinta e cinco anos do pobre segurado, bem, manteríamos o silêncio. Na realidade, pode-se admitir, é preciso salvar o Brasil.

Que país é esse onde um professor do Estado da Bahia cumpre os seus trinta anos de serviço e tem que esperar – trabalhando – a boa vontade dos burocratas da Secretaria de Educação para a concessão da aposentadoria? Não seria lógico, o tempo cumprido, ir para casa? Se o processo tem que correr, por que a tramitação não pode ser iniciada, por exemplo, seis meses antes do cumprimento do prazo de trinta anos? Que país é esse onde o presidente emite uma medida provisória e indecorosamente cassa dezoito anos de contribuição no teto de um segurado? Onde o tão propalado Estado de Direito?

Mas o país corre o risco de quebrar. A economia andou para trás cerca de dez por cento nos últimos anos, coisa nunca vista nesse país. Os brasileiros não querem contemplar mais de treze milhões de desempregados ao seu redor. Não querem estar a comprar pipocas, balas e picolés de outros tantos treze milhões num esforço de solidariedade que só os brasileiros sabem fazer. Os brasileiros aposentados não querem receber apenas um terço do seu benefício como aconteceu na Grécia que quebrou. Não querem passar pelos apertos dos portugueses e dos espanhóis. Com dez por cento a menos de PIB, os brasileiros não podem brincar. Dez por cento de marcha a ré do Produto Interno Bruto já é um desastre. Há que se fazer alguma coisa antes que o desastre total aconteça.

Entretanto, o ideal seria que a foice começasse a cortar de cima para baixo. Cortar a ponta dos privilégios. Cortar os salários escandalosos de alguns setores públicos. Diminuir o que os americanos chamam de gap, a distância entre as classes sociais. Nivelar o sistema de aposentadoria de todos os brasileiros. Praticar a tão badalada isonomia. Como acreditar que em um país ainda tão marcado pela miséria; como acreditar em um deputado que afirma, em discurso na Câmara Federal, que nenhum promotor do Paraná ganha menos de cem mil reais por mês? Nem um! Nem um sequer! Cem mil reais!

Claro que a economia tem que ser rearrumada. Alguém de pulso e com legitimidade tem que assumir as rédeas; alguém que, como Campos Sales, queira entrar na História como um verdadeiro estadista. Mas que a faxina comece de cima. Que os grandes conglomerados paguem os seus impostos [acumulados]. Que os que podem pagar uma diária de sessenta mil reais num hotel de Dubai, que pagam sete mil reais por um jantar na Europa, que colecionam fazendas interior do Brasil afora; que paguem um pouco mais em impostos.
Nós outros ousaríamos convidá-los a assim procederem. Eles poderiam olhar em volta e, vendo menos miséria – e a consequente violência, poderiam ser um pouco mais felizes.
Francisco Nery Júnior

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