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28.06.2017 | 17:30

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Prefeito Padre Eraldo quer que as usinas hidrelétricas de Paulo Afonso sejam de Delmiro Gouveia

Cf. jornal Tribuna Independente, de Alagoas, de 09/06 2017

Antônio Galdino

Prefeito Padre Eraldo defende que as usinas hidrelétricas de Paulo Afonso pertencem a Delmiro Gouveia

Foto: João Tavares
Vista panorâmica da Barragem Delmiro Gouveia, Usinas PA 1,2 e 3 e início do cânion do rio São Francisco em Paulo Afonsso-BA

Vista panorâmica da Barragem Delmiro Gouveia, Usinas PA 1,2 e 3 e início do cânion do rio São Francisco em Paulo Afonsso-BA

 É a manchete da capa do jornal Tribuna Independente, de Alagoas, de sexta-feira, 09 de Junho de 2017.
Na verdade, esse assunto tem aparecido desde os tempos da gestão do prefeito Raimundo Caires levantando-se a hipótese que as usinas de Paulo Afonso pertencem ao município de Delmiro Gouveia, tomando-se para isso os registros de Henrique Guilherme Fernando Halfeld que, entre os anos de 1852 e 1854, a mando do Imperador D. Pedro II, percorreu o rio São Francisco, a partir de Pirapora, em Minas Gerais até sua foz e relata légua a légua o que foi encontrando ao longo do rio. No relato das léguas 325 e 326 ele destaca o que encontrou na região da Cachoeira de Paulo Afonso, citando a existência de muitas ilhas nas imediações dessa grande cachoeira.

divulgação

O seu relatório chamado “Atlas e relatório concernente à exploração do Rio São Francisco, desde a Cachoeira de Pirapora até o Oceano Atlântico”, foi publicado em 1960 e os relatos levados ao Imperador foram motivação para que Sua Alteza Imperial quisesse conhecer a Cachoeira de Paulo Afonso, o que o fez em 20 de Outubro de 1859. (Cf. De Forquilha a Paulo Afonso – Histórias e Memórias de Pioneiros, Editora Fonte Viva – Paulo Afonso-BA, 2014)

A beleza da Cachoeira de Paulo Afonso que atraiu o Imperador, motivou versos magníficos de Castro Alves, publicados em 1879, também encantaram geógrafos como Teodoro Sampaio que em 1905, disse: “Paulo Afonso, vê-se, sente-se, não se descreve”. E despertaram o interesse econômico de Delmiro Gouveia que viu nessas quedas d`água não apenas objeto de contemplação mas fonte de riqueza pela produção de energia hidroelétrica. E construiu Angiquinho em 1913.

Foto: acervo Memorial Chesf Paulo Afonso
Usina Angiquinho, funcionando, em 1960.

Usina Angiquinho, funcionando, em 1960.

 De Angiquinho, Delmiro Gouveia levou a água encanada e a energia elétrica para mover as máquinas de sua Fábrica de linhas de coser, a Companhia Agro Fabril Mercantil S.A., instalada a 24 quilômetros da Cachoeira de Paulo Afonso, na localidade conhecida como Vila da Pedra, pertencente ao município de Água Branca-AL.

Em 1945, o Ministro da Agricultura do governo Vargas, Apolônio Jorge de Farias Sales, nascido em Altinho-PE, propôs ao presidente Getúlio Vargas a criação de uma grande empresa que, à semelhança do que fez Delmiro Gouveia em 1913, pudesse gerar e distribuir a energia elétrica a partir das águas do rio São Francisco na região da Cachoeira de Paulo Afonso, no Estado de Alagoas, na divisa com o Estado da Bahia e bem próxima dos Estados de Pernambuco e de Sergipe.

Foto: Arq. Folha Sertaneja
Engenheiro Apolônio Sales, criador e presidente da Chesf por 12 anos

Engenheiro Apolônio Sales, criador e presidente da Chesf por 12 anos

O motivo da construção desta usina hidrelétrica era econômico mas também estratégico em face da região de fronteira dos Estados e de um país recém-saída de uma grande guerra mundial e com um forte aparato de americanos instalados em Natal/RN.

Getúlio Vargas assinou os Decretos-Leis Nº8031 e 8032, criando a Chesf no dia 03 de Outubro de 1945 mas no dia 29 deste mesmo mês foi deposto e os Decretos ficaram nas gavetas do governo.
Mas, embora a Chesf tenha sido constituída e sua primeira diretoria empossada em 15 de Março de 1948, já em 07 de Julho de 1947, o presidente Eurico Gaspar Dutra e grande comitiva de políticos e militares esteve na Cachoeira de Paulo Afonso como registrou a Revista O Cruzeiro desta data.
A Chesf começou a se instalar na região ainda em 1948 e os trabalhos da construção da Usina de Paulo Afonso foram iniciados.

Foto: Antonio Galdino
Obelisco na margem baiana do rio São Francisco. Marco inicial da Barragem Delmiro Gouveia

Obelisco na margem baiana do rio São Francisco. Marco inicial da Barragem Delmiro Gouveia

 Foi construída a Barragem Delmiro Gouveia com 4,5 quilômetros de extensão indo do lado baiano para o lado alagoano e cujo início foi marcado pelo Obelisco fincado na margem baiana do rio São Francisco.
Paralelamente à construção da barragem, desvio do rio e construção da usina subterrânea, construía-se o Acampamento da Chesf, na época também chamada de Cidade da Chesf.

Em 31 de Outubro de 1957, “o governo brasileiro, através da Chesf, adquiriu da Companhia Agro Fabril Mercantil todo o patrimônio da Usina Angiquinho, conforme escritura pública e registro de Arnaldo Maciel, 5º Tabelião Público de Notas do Recife” (Cf. ANGIQUINHO – 100 anos de História – EGBA – Salvador-BA, 2013 – Pág. 97)
“Este documento dá conta que a Chesf adquiriu da Agro não só as instalações conhecidas como Usina Angiquinho mas toda a área onde foi construída a Usina Paulo Afonso I e Acampamento da Chesf”. (Cf. ANGIQUINHO – 100 anos de História – EGBA – Salvador-BA, 2013 – Pág. 97).
“...a posse justa e a propriedade da Chesf sobre os imóveis onde levantou a Usina de Paulo Afonso, com suas instalações e o acampamento do seu pessoal, situados no município de Glória, Estado da Bahia”. (Cf. ANGIQUINHO – 100 anos de História – EGBA – Salvador-BA, 2013 – Pág. 98).

O assunto da defesa de que as Usinas de Paulo Afonso pertencem ao município de Delmiro Gouveia nos faz lembrar que, em assim sendo, há que se rever muitas ações que por certo vão mudar muita coisa nesse país.

da net

 O município de Glória, do qual Paulo Afonso se emancipou em 28/07/1958, já existia há séculos. Em 08/04/1842, o povoado foi elevado à categoria de Vila pela Lei Provincial Nº 60. Em 1º/05/1886, a Lei Provincial Nº 2.553 criou o município de Santo Antônio da Glória, cujo território foi desmembrado do município de Jeremoabo. (Cf, De Forquilha a Paulo Afonso – Editora Fonte Viva – Paulo Afonso-BA, 2014 – Pág.394)

O povoado Pedra, no qual Delmiro Gouveia instalou sua Fábrica de Linhas de Coser, alimentada pela Usina Angiquinho, inaugurada em 1913, “Em 1897, no Almanaque Administrativo do Estado Alagoas, o local já aparece como um povoado do município de Água Branca.”.(Cf.www.historiadealagoas.com.br)
Em divisão territorial datada de 1º de julho de 1950 o distrito de Delmiro figura no município de Água Branca. Elevado à categoria de município com a denominação de Delmiro Gouveia pela Lei Estadual n.º 1.628, de 16 de junho de 1952, sendo desmembrado de Água Branca. Sede no atual distrito de Delmiro Gouveia. Constituído do distrito sede. Instalado em 14 de fevereiro de 1954. (Cf.www.historiadealagoas.com.br)

Theófilo de Andrade publicou uma série de textos sobre Paulo Afonso em O Jornal, do Rio de Janeiro e em uma delas, em Julho de 1969, ele diz:
“Paulo Afonso não é somente uma fábrica de energia elétrica para o Nordeste do Brasil, mas também um núcleo de civilização no seu sentido mais largo, a levantar o nível de cultura, de saúde, de instrução dos sertanejos que defendem o seu lugar ao sol, às margens do São Francisco”. (Paulo Afonso – De Pouso de Boiadas a Redenção do Nordeste – Editora Fonte Viva – Paulo Afonso-BA, 1995, Pág. 24)

E Apolônio Sales, que foi senador da República, Ministro, criador da Chesf e seu Presidente por 12 anos (05/62-06/74), diz no relatório da empresa do ano de 1970: “A cidade e o município de Paulo Afonso, nascidos ambos em decorrência das obras de instalação das usinas hidrelétricas que ora abastecem de energia todo o Nordeste, são hoje núcleos de desenvolvimento dos mais intensos no sertão”.

ASCOM/PMPA
Prefeito de Delmiro Gouveia, Pe. Eraldo, visita Prefeito Luiz de Deus, de Paulo Afonso

Prefeito de Delmiro Gouveia, Pe. Eraldo, visita Prefeito Luiz de Deus, de Paulo Afonso

 O assunto, trazido a público através de matéria de capa do jornal Tribuna Independente, de Alagoas, de sexta-feira, 09 de Junho de 2017 assegura que “o prefeito Padre Eraldo formalizou junto à Procuradoria Geral da União (PGU) pedido para que reveja a demarcação das terras da Usina Hidrelétrica de Paulo Afonso e a reconheça como pertencente ao município de Delmiro Gouveia”. O jornal também afirma que tal ação do prefeito Padre Eraldo está fundamentada “em estudo detalhado do ex-diretor da Receita Municipal, Renato Santos”.
Pelo que se lê, reaparece o interesse econômico de Delmiro Gouveia.

Dias antes desta publicação, o Prefeito Luiz de Deus(PSD), de Paulo Afonso recebeu em seu gabinete o Prefeito Padre Eraldo(PSD), de Delmiro Gouveia, conforme registrou a Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Paulo Afonso: “Na manhã de quarta-feira, 19/04, o prefeito de Paulo Afonso, Luiz Barbosa de Deus recebeu em seu gabinete a visita do prefeito da cidade de Delmiro Gouveia – AL, Eraldo Joaquim Cordeiro (Padre Eraldo) e do vereador Carlos Roberto (Cacau). Durante a reunião foi discutida a possibilidade de uma integração entre os dois municípios vizinhos para melhorar e ampliar o turismo.”

Arq. Folha Sertaneja
Flávio Henrique, vice-prefeito de Paulo Afonso

Flávio Henrique, vice-prefeito de Paulo Afonso

O vice-prefeito de Paulo Afonso, Flávio Henrique, foi procurado pelo jornal Folha Sertaneja para falar sobre o assunto. Dias depois, em nota publicada no Facebook ele disse:
“Me esforcei para não comentar, mas não consigo! Fala aqui um filho de Paulo Afonso.
Sobre a tese que para minha surpresa a Prefeitura de Delmiro Gouveia resolveu encampar, para requerer parte do território de Paulo Afonso, claro que por coincidência as áreas das usinas, seu fundamento é ralo, insípido e desconsidera todo aspecto histórico-político de construção das divisas no entorno de nossa cidade. Sobre o fundamento, resumo dizendo que caso ocorresse de ser acatado, o Estado de Sergipe e o próprio Estado de Alagoas poderiam também sumir, aliás se é para mudar, com base nos mapas do passado, vamos então reinstalar o Tratado de Tordesilhas, voltarmos a ser de Portugal, e nos tornando europeus, quem sabe a gente garante o desenvolvimento das terras daqui com ainda mais força e rapidez! Mas, confesso minha indignação, pois a proposta apresentada, além de ter fundamento facilmente questionável, ignora e de forma afrontosa desconsidera um aspecto, a identidade do povo de Paulo Afonso. Chega a ser desrespeitosa a forma como o assunto é tratado. Parece que estão falando apenas de "terras"! Pois bem nobres vizinhos, aqui tem um povo, com cultura e principalmente uma rica história. Essa cidade é fruto do trabalho de nordestinos de vários estados, mas que nesse momento já detém raízes próprias muito bem estabelecidas. O propósito dessa empreitada é pobre, de nenhum espírito republicano, federalista, movido apenas por interesses de natureza econômica. Lá trás, quando as divisas foram definidas, poderíamos ter sido localizados em qualquer lugar, mas isso não aconteceu, e todas as definições foram realizadas dentro da ordem e dos princípios legais que norteiam uma Federação. Quem questiona agora o passado, está questionando mais que território, e declaro, na qualidade de filho dessa terra, que NÃO! Não quero de jeito nenhum essa ou qualquer outra mudança capaz de afetar a linda história da nossa cidade, que apesar de jovem, cravou sua condição de força econômica regional, despertando a paupérrima cobiça dos que se acham no direito de vociferar que são "donas" do nosso território ou parte dele. Somos Bahia, somos Paulo Afonso, e vamos seguir assim. Se vai haver ação judicial não sei, mas se houver, conhecerão a força e o destemor do povo pauloafonsino para defender sua terra, sua cidade! A legítima nobreza, a riqueza que vale a pena, não se toma, se constrói. Não tem jeito, a história assim diz: Delmiro, não a cidade, mas o visionário, apenas "deu a ideia". Amo Paulo Afonso ... Pra frente é que se anda! (Flávio Henrique, vice-prefeito de Paulo Afonso – Bahia”)

Uma vez levado adiante esse propósito e em sendo ele exitoso, todos os baianos de Paulo Afonso devemos nos preparar para voltar aos antigos tempos de Forquilha e assim como os delmirenses estarão voltando aos tempos da Vila da Pedra e passarão a ser agua-branquinhos. E a viver à luz de candeeiros de pavio porque nem Delmiro Gouveia havia ainda chegado por estas terras sertanejas. Talvez nem tivesse nascido nas terras de Ipu, no Ceará e, portanto, não haveria, Angiquinho, nem Fábrica da Pedra, nem a Chesf, nem nós até, nessa fantástica viagem de retorno ao passado, andando “patrasmente”, como diria Odorico Paraguaçu...

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