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25.11.2017 | 11:40

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A Luz de Paulo Afonso

25 de Novembro - DIA DO RIO

Jânio Soares* in jornal A TARDE de 25/11/2017

A Luz de Paulo Afonso

Foto: João Tavares
Rio São Francisco ao amanhecer em Penedo-AL

Rio São Francisco ao amanhecer em Penedo-AL

 No momento em que escrevo estas linhas (antes das 5 da manhã), ela ainda derrama seus fachos sobre as águas do São Francisco que, agradecido, parece mandar através das hidroelétricas a força exata para fazê-la brilhar assim, nesse tom perfeito. Pena que daqui a pouco amanhecerá e seu clarão diminuirá lentamente até apagar de vez ao som dos clicks dos interruptores das casas e das fotocélulas dos postes. Mas até o ponto final, sei que ainda terei tempo de curtir as sutilezas dessa paisagem que, diariamente, vejo do meu quintal.

Quando está amanhecendo e sopra um vento norte, como agora, não é exagero dizer que seu brilho sobre o rio lembra uma tela de Van Gogh, só que acrescida das primeiras garças que passam quase triscando suas asas na superfície. Já na calmaria de uma madrugada de verão, onde réstias cintilam entre coqueiros e canoas, a esquadria de alumínio emoldura um quadro que poderia muito bem ter saído do pincel de Monet. Mas todas essas abstrações vão embora assim que o dia chega e o sol que alucinava Baleia, surge como se avisando que quem manda no sertão é a escrita seca do mestre Graciliano.

Para os nordestinos nascidos antes da década de 50, a chegada da energia elétrica gerada pelo funcionamento da usina Paulo Afonso I foi um verdadeiro acontecimento. Que o diga dona Canô, que certa feita declarou numa entrevista, que a coisa que mais a impressionou ao chegar pela primeira vez em Salvador, não foi a grandeza da capital, tampouco seu movimento, mas sim, o simples gesto de apertar um botão e ver tudo clarear ao seu redor. Igualmente a ela, milhares de nordestinos também ficaram encantados com a novidade, à época festejada como a “Luz de Paulo Afonso”.

Creio que a maioria dessa meninada crescida sob o domínio das redes não tem a menor ideia de como surgiu e nem de onde vêm os milhares de quilowatts que impulsionam seus tablets, blogs e baladas. Também acho que poucos ouviram falar de um moço chamado Delmiro Gouveia, que no começo do século passado percebeu que as águas da cachoeira poderiam render muito mais do que belos versos de Castro Alves, loas de Dom Pedro II e exclamações de encantamento de boquiabertos visitantes.

Outro dia, numa dessas inúteis reuniões com dezenas de municípios defendendo suas potencialidades, uma senhorinha quis saber de onde eu era. “Paulo Afonso”, respondi. “E lá tem o quê?”. Olhei pra sala com o ar condicionado perfeito, assim como o som, o projetor, as luzes, e quando ia responder que se um conterrâneo quisesse acabar com a festa era só apertar um botão, anunciaram um tal de “coffee break” que, como diria Ariano Suassuna, foi um péssimo palestrante.

* Jânio Soares escreve quinzenalmente, aos sábados, no jornal A TARDE, de Salvador, desde 2006. Esse texto foi publicado neste jornal da capital baiana no dia 25 de Novembro de 2017, no Dia do Rio e estará no livro "Rio São Francisco em prosa e versos, editado pela Academia de Letras de Paulo Afonso - ALPA, em fase de produção. Jânio é Secretário Municipal de Cultura de Paulo Afonso e membro da ALPA, ns cadeira que tem como patrono o também baiano João Ubaldo Ribeiro. VEJA mais fotos do rio São Francisco no Facebook Antônio Silva Galdinoi.(Nota da Redação do site www.folhasertaneja.com.br)

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