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23.01.2018 | 20:38

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A volta ao provinciano e o mercadinho de Eguinaldo

Ou, Lembrando os espanhóis da Rua General Labatut

Francisco Nery Júnior

A volta ao provinciano e o mercadinho de Eguinaldo

da net
Bairro Barris - Salvador-BA

Bairro Barris - Salvador-BA

 O bairro era os Barris. Lá morei por treze anos; dos oito aos vinte e um. Na rua General Labatut, o Armazém Barcelona. Eram três jovens espanhóis os donos. Para mim, tinham sido deixados por um pai imigrante que havia regressado para a Espanha. Faziam parte do meu mundo juvenil. Lá comprava açúcar e sal, biscoitos e feijão, a mando da minha mãe. Menino era parte da família, do grupo ou do clã. Menino era cuidado e menino era parte da produção. Com que cuidado e responsabilidade eu fazia os mandos da minha mãe! Os tempos eram provincianos. A vida parecia mais doce. A minha produção – o meu pai era o provedor-mor – me dava a sensação de fazer parte do grupo; de não ser um peso para os meus pais.

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Biblioteca Pública de Barris - Salvador-BA

Biblioteca Pública de Barris - Salvador-BA

Foi um daqueles espanhóis que encontrei agora nos Barris. Conversava com o porteiro do prédio sobre um imóvel à venda quando um vetusto senhor que entrava resolveu entrar na conversa. O sotaque já menos carregado me revelou aos poucos o espanhol do Barcelona. Não fiz o negócio que pretendia fazer devido ao seu conselho. Agora éramos amigos. A distância entre o jovem maduro e o menino comprador não mais existia. Por pouco não nos tornamos vizinhos. Uma semana depois estava na Madrid do meu amigo espanhol.

Foto:João Tavares
Ilha de Paulo Afonso-BA

Ilha de Paulo Afonso-BA

 A volta a Paulo Afonso – como sempre – foi banhada pelo cheiro inigualável da caatinga. No mundo, não há cheiro melhor. O cheiro é a origem. O cheiro é a pátria. O cheiro preserva as amarras e nos insta a todos nós a não desistir. A vitória está reservada para os que não desistem. A desistência seria a vitória do inimigo cruel com a sua crueldade inexplicável. Ou explicável apenas no campo da patologia sem nexo.

imagem ilustrativa

Na volta, a necessidade de comprar açúcar e café. Antes, o Barcelona. Agora o Mercadinho de Eguinaldo bem ao alcance dos pés. Basta virar a esquina. O gosto provinciano do bar da esquina está voltando. As pessoas preferem o armazém de antigamente ao grande supermercado de hoje, entreposto das compras programadas, mistura de indivíduos só indivíduos. O mercadinho do bairro é ponto de encontro. É clube e é conversa. Trocam-se ideias e cumprimentos. Revivem-se os bons tempos. O mercado da esquina é parte da família. É mercado só no nome. Não é o Mercado ditador da regras da economia. É a nossa volta a um passado que está se tornando presente.

Armazém Barcelona e os nossos mercadinhos! Vivam eles. Que se multipliquem. Que nos deem de volta o tanto de satisfação que nos fazia viver melhor.

Francisco Nery Júnior
É membro da Academia de Letras
de Paulo Afonso - ALPA - Cadeira Nº18

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