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15.03.2018 | 01:32

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15 de Março de 2018. A Chesf mudando a história do Nordeste, há 70 anos

Há dois Nordestes: o de Antes e de Depois da Chesf

Antônio Galdino

A Chesf mudando a história do Nordeste, há 70 anos
Há dois Nordestes: o de Antes e de Depois da Chesf

Foto: acervo Memorial Chesf Paulo Afonso
Apolônio Sales. Criou a Chesf e foi seu presidente por muitos anos

Apolônio Sales. Criou a Chesf e foi seu presidente por muitos anos

 Dia 15 de Março de 2018 deveria ser feriado municipal em Paulo Afonso ou até feriado em toda a Região Nordeste. Para que todos pudessem comemorar, festivamente, os 70 anos de um empresa que mudou radicalmente a vida de milhões de pessoas, sertanejos, nordestinos. Tudo começou em 15 de Março de 1948 quando foi empossada a primeira diretoria da Chesf.

A partir daí, o Nordeste brasileiro tem a sua história escrita em dois grandes capítulos: o Nordeste A/C e o Nordeste D/C, ou seja: Nordeste Antes da Chesf e Depois da Chesf.

Os que conhecem e estudam a história da região Nordeste brasileira sabem que até a chegada da “luz da Chesf”, as condições de desenvolvimento eram praticamente nulas e a miséria campeava nas grandes e nas pequenas cidades da região.

O índice de analfabetismo e de mortalidade infantil era assustador e piores que os países mais pobres da África. O nível de pobreza era tamanho que a região era como se fosse um pedaço do país que envergonhava os que moravam em outras regiões.

Foto: acervo Memorial Chesf Paulo Afonso
AntOnio José Alves de Souza, primeiro presidente da Chesf

AntOnio José Alves de Souza, primeiro presidente da Chesf

A Chesf nasceu a partir dos Decretos-Leis Nºs 8.031 e 8.032 levados pelo Ministro da Agricultura para serem assinados pelo presidente da República Getúlio Vargas, o que aconteceu no dia 03 de Outubro de 1945. No final do mês Getúlio Vargas foi deposto e os projetos ficaram engavetados.

Revista O Cruzeiro - 1947
Presidente Dutra e comitiva na Cachoeira de Paulo Afonso, em Jul/1947

Presidente Dutra e comitiva na Cachoeira de Paulo Afonso, em Jul/1947

 Em Julho de 1947, o presidente Eurico Gaspar Dutra, ex-Ministro da Guerra, veio, com grande comitiva de políticos e ministros visitar a Cachoeira de Paulo Afonso.

Em 15 de Março de 1948 é nomeada a primeira diretoria da Chesf tendo à frente o Engenheiro Antônio José Alves de Souza, então diretor da Divisão de Águas do Ministério da Agricultura que era o ministério responsável pelas águas em todo território nacional.

Os primeiros engenheiros e trabalhadores chegaram a Paulo Afonso ainda no ano de 1948 e a obra foi iniciada com todo vigor. Havia pressa em fazer valer o sonho de Delmiro Gouveia que, em 1913 construiu a pequena Usina Hidrelétrica de Angiquinho.

Foto: acervo Memorial Chesf Paulo Afonso
Grande movimentação em frente às guaritas da Chesf

Grande movimentação em frente às guaritas da Chesf

 Logo foram chegando milhares de trabalhadores para a construção da Usina de Paulo Afonso e para isso foram edificadas centenas, mais de duas mil casas, escritórios, hospital, clubes sociais, escolas, um Ginásio, o GPA, depois COLEPA, enquanto também se construía a Barragem Delmiro Gouveia, com 4,5 quilômetros de extensão, indo do Estado da Bahia para o Estado de Alagoas.

A chegada da “luz de Paulo Afonso” ao Recife, ainda no final de Dezembro de 1954 e a Salvador no início de Janeiro de 1955 foi motivo de muita festa e comemoração. Começava a ser escrito o segundo capítulo da história do Nordeste – o Nordeste Depois da Chesf.

Um dos pioneiros chesfianos, Engenheiro Antônio Feijó, que escreveu o livro “Chesf, memórias, registros e lembranças” (2004) disse o seguinte à jornalista Ângela Belfort, do Jornal do Commercio, do Recife na matéria “A usina que fez uma revolução”, publicada no dia 14 de dezembro de 2014:

Foto: acervo Memorial Chesf Paulo Afonso
Presidente Café Filho inaugura a Usina de Paulo Afonso - 15/01/1955

Presidente Café Filho inaugura a Usina de Paulo Afonso - 15/01/1955

 “Antes de Paulo Afonso, a lâmpada da rua era apenas uma brasinha em vários bairros da capital. Em Jaboatão, a energia só ia até o quartel do 14º regimento de Infantaria, no Socorro. Em Olinda, a iluminação alcançava até a Praça 12 de Março em Bairro Novo”. Na época, Feijó tinha 18 anos.

E acrescenta o pioneiro: “As casas e as cidades ficaram mais iluminadas após a chegada da energia de Paulo Afonso. A primeira coisa que fiz foi comprar um liquidificador de presente para a minha mãe. Depois, adquiri uma geladeira.”
Na mesma reportagem, o historiador Leonardo Dantas Silva diz: “A discussão sobre a industrialização no Nordeste começou em 1958 em decorrência de Paulo Afonso”. E ele acrescenta: “Depois disso vieram os primeiros distritos industriais no Cabo, em Paulista, além de um novo aeroporto. Surgiu um clima de progresso na cidade e no Nordeste”.

O que seria apenas uma Usina Hidrelétrica, a primeira subterrânea da América Latina, construída nas entranhas dos paredões de granito, a 80 metros de profundidade, em Paulo Afonso, com toda obra utilizando veículos importados porque não se fabricavam automóveis no Brasil nos meados do século XX e com mão de obra sertaneja, os “cassacos”, foi uma epopeia que precisa ser perpetuada na história desta região.

Foto:João Tavares
Complexo hidrelétrico de Paulo Afonso

Complexo hidrelétrico de Paulo Afonso

 Paulo Afonso, o berço da Chesf, viu nascerem outras grandes usinas em seu território e nas redondezas. À pequena Usina Paulo Afonso, de apenas 180 megawatts, inaugurada solenemente pelo presidente João Café Filho em 15 de Janeiro de 1955 se juntaram a segunda Usina e logo a grande demanda exigiu outros investimentos e foi construída a terceira usina. Depois, veio a Usina de Moxotó que passou a se chamar Apolônio Sales em homenagem ao criador da Chesf. E logo veio a Usina Paulo Afonso IV que, sozinha tem a capacidade de geração maior que todas as outras juntas.

A Usina de Itaparica, que depois passou a se chamar Luiz Gonzaga em homenagem ao Rei do Baião que criou, junto com Zé Dantas, a música Paulo Afonso foi construída em Petrolândia/PE e, na divisa dos Estados de Alagoas e Sergipe enfim a Chesf construiu a Usina Hidrelétrica de Xingó, a maior do complexo Chesf e todas elas compõem o Complexo de Usinas de Paulo Afonso, responsáveis por mais de 84% de toda a energia de fonte hidráulica gerada pela Chesf que chega a pouco mais de 10 mil megawatts.

Foto:João Tavares
Usina Hidrelétrica de Xingó

Usina Hidrelétrica de Xingó

Não há como não reconhecer a Chesf como um excepcional divisor de águas entre o Nordeste até os anos de 1940 e o Nordeste depois de receber a “luz de Paulo Afonso”. A empresa passou a ser o grande patrimônio dos nordestinos, o vetor principal do desenvolvimento de toda a região e hoje ajuda a desenvolver outras regiões do Brasil.

Daí o sentimento de pertencimento de todos os que um dia trabalharam nesta empresa, desde os “cassacos”, os marteleteiros, seus milhares de pioneiros anônimos aos que nela hoje trabalham apoiados por modernos sistemas digitais.
Tanto é assim que que não existem ex-chesfianos. Existem ex-funcionários, da Chesf, aposentados, mas não ex-chefianos e deles, desde os mais antigos aos mais modernos, tenho ouvido relatos marcantes da importância da Chesf em sua vida, na formação das suas famílias, na educação dos seus filhos e netos.

Arq. Folha Sertaneja
Luiz Fernando Motta Nascimento, pioneiro chesfiano

Luiz Fernando Motta Nascimento, pioneiro chesfiano

 E deixaram relatos fortes desse amor incondicional e ainda que alquebrados pela idade são capazes de empunhar bandeiras em defesa da Chesf, contra a sua privatização, esse fantasma agourento que, de vez em quando aparece, alimentado por outros interesses nada republicanos.
De Luiz Fernando Motta Nascimento, engenheiro que foi aluno do Ginásio Paulo Afonso e chegou a ser Diretor de Construção e Diretor de Suprimento da Chesf, lembranças fortes do trabalho do seu pai, conhecido como Mestre Alfredo, e dele próprio, se derramando de amor por esta empresa que chega aos 70 anos de vida intensa. Luiz Fernando escreveu o livro Paulo Afonso – Luz e Força para o Nordeste (1998).

Foto: Antonio Galdino
Euclides Ribeiro

Euclides Ribeiro

Euclides Ribeiro, começou a trabalhar na Chesf em 04 de Fevereiro de 1949, nela permaneceu durante “43 anos, dois meses e 29 dias”, como fazia questão de destacar. Ele faleceu em 2015, aos 95 anos de vida e foi considerado funcionário exemplar, Operário Padrão da Chesf e em entrevista que me concedeu para o Chá da Memória que produzi para a Chesf nos 60 anos da empresa, publicada no livro “Euclides Ribeiro – 95 anos de histórias de vida” (Antônio Galdino – 2016), definia assim a Chesf;
C - de concretização, credibilidade e confiança;
H - de heroísmo, harmonia e humanização. Nós, na Chesf, sempre fomos uma família humana e trabalhamos com harmonia;
E - de equilíbrio, edificação, eficiência e eficácia. Nós fomos eficientes;
S - de salvação, solidariedade e saudade, pois a Chesf foi a salvação do Nordeste e todos nós sentimos saudade dessa empresa;
F - de fidelidade e felicidade, pois fomos felizes nessa empresa e nós concretizamos o heroísmo, a evolução sólida e firme da Companhia Hidro Elétrica do Brasil.

Nos livros “Angiquinho – 100 anos de História”(Antônio Galdino e João S. Lima - 2013), “Paulo Afonso – De pouso de boiadas a redenção do Nordeste” (Antônio Galdino -1995) e “De Forquilha a Paulo Afonso – Histórias e Memórias de Pioneiros” (Antônio Galdino - 2014), e até no livro “Igreja Presbiteriana de Paulo Afonso – 62 de história (Antônio Galdino - 2011), a Chesf e seus pioneiros são personagens constantes.

Foto: Antonio Galdino
José Vitorino Diniz, faleceu aos 93 anos

José Vitorino Diniz, faleceu aos 93 anos

 E não posso deixar de lembrar do Sr. José Vitorino Diniz, falecido recentemente aos 93 anos de idade, pioneiro motorista de Koering, veículo chamado pelos trabalhadores de Koringa, que enchia o peito de orgulho ao dizer: “A primeira carrada de pedras para o fechamento do rio, fui eu que levei na Koringa que eu dirigia.”

Assim, mesmo passando a Chesf por momentos delicados de sua história, não se pode deixar de lembrar destes que representam milhares de outros pioneiros, cassacos, homens rudes, sertanejos que eram carinhosamente aceitos pelo Presidente Antônio José Alves de Sousa que convivia com eles em seus momentos simples de lazer, nas festas natalinas e nos churrascos realizados no campo do Copa, em corridas de saco, de ovo na colher, nas competições da piscina do CPA, nos bailes do CPA.

Ali estava o Dr. Souza, no meio da peãozada, como se fosse igual a todos eles. E com eles os diretores mais importantes como Dr. Otávio Marcondes Ferraz e todos os outros.

Arq. Folha Sertaneja
Professoras D. Mercedes e D. Maria Amélia

Professoras D. Mercedes e D. Maria Amélia

Não de pode deixar de aplaudir às professoras pioneiras da Chesf onde estudavam o filho do cassado e o filho do engenheiro, com a mesma farda, a mesma merenda, os mesmos professores.

Por causa da existência da Chesf nasceram muitas cidades como Paulo Afonso, que só nasceu 10 anos depois da hidrelétrica e muitas outras.
E, por causa da Chesf e suas usinas nesta região, o Povoado Forquilha, de poucas e esparsas casas de taipa ou pau-a-pique, é hoje, ao completar 60 anos, um grande polo de desenvolvimento regional onde moram mais de 120 mil habitantes.

foto: Acervo da família
João Galdino da Silva

João Galdino da Silva

 As histórias da Chesf e o desenvolvimento que ela proporcionou ao Nordeste já renderam muitos livros e outros tantos estão sendo feitos porque uma epopeia destas precisa ser difundida aos quatro ventos, registrada com todos os detalhes para que as futuras gerações, séculos na frente, compreendam a sua importância e o valor do sertanejo que fez desta empresa, sempre, ao longo de toda a sua história de cada dia, a redenção do Nordeste de Antes da Chesf e de Depois da Chesf.

 A Chesf onde meu pai começou a trabalhar em Janeiro de 1955, quando se inaugurava a sua primeira usina, do meu irmão, ambos falecidos, a minha Chesf, onde trabalhei por 36 anos e 6 meses completa 70 anos de vida levando o desenvolvimento ao Nordeste, ao Brasil. Parabéns à Chesf, aos seus pioneiros e descendentes e aos funcionários mais novos, pelo legado que esta empresa tem deixado para todo o Brasil e por ter sido a responsável pela segunda parte da história do Nordeste.

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