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18.03.2018 | 17:54

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O nome MARIA BONITA

Interessante pesquisa de Luiz Rubem Bonfim

Luiz Ruben F. de A. Bonfim Conselheiro do Cariri Cangaço - Turismólogo - Economista - Membro da ALPA

O nome Maria Bonita

Arq. Folha Sertaneja
Maria Bonita

Maria Bonita

Arq. Folha Sertaneja
Pesquisador e escritor Luiz Rubem

Pesquisador e escritor Luiz Rubem

 Há quase duas décadas de pesquisas sobre o cangaço, principalmente vasculhando documentos oficiais, boletins da polícia militar da Bahia e jornais, nas bibliotecas, arquivos públicos e institutos históricos de alguns estados do nordeste, do Rio e de São Paulo, verifiquei que havia várias versões sobre a origem do nome de alcunha da mulher de Lampião.

Maria Gomes de Oliveira, (1910 - 1938), nascida na Malhada da Caiçara, pertencente a antiga cidade de Santo Antônio da Glória, hoje submersa pela barragem Moxotó, (que alimenta a Usina Apolônio Sales e o complexo de usinas hidrelética de Paulo Afonso), atualmente a área pertence ao município de Paulo Afonso, na Bahia, terra onde passei mais da metade da minha vida e da qual tenho o título de cidadão. Essa personagem entra no cangaço acompanhando Lampião, junto com sua prima Mariquinha companheira de Ângelo Roque, no início dos anos 30.

Hoje se reconhece imediatamente o nome Maria Bonita como sendo o da mulher de Lampião, mas, nem sempre foi assim, esse nome não foi concebido especialmente para alcunhar a mulher de Lampião. A mulher de Virgolino Ferreira da Silva (1898 – 1938), o Lampião, era chamada por seus companheiros de cangaço de: Maria de Déa, Dona Maria, Maria do Capitão. Esses nomes foram, por diversas vezes, citados na imprensa em entrevistas dadas, após o fim do cangaço, pelos cangaceiros sobreviventes.

divulgação
livro de Luiz Rubem

livro de Luiz Rubem

 Antes do acontecido na Grota de Angico, a imprensa já denominava algumas mulheres de Maria Bonita, como nos casos a seguir:
- Em 1 de maio de 1934 o jornal A Noite, 3ª edição, publica a manchete com a matéria a seguir:
Depois do tiroteio – Caiu em mãos da polícia a companheira de Lampeão.
(...) Durou 45 minutos o fogo, e após, os cangaceiros fugiram, deixando no campo a mulher Maria Bonitinha, companheira fiel de Virgolino.
Essa é claramente uma notícia falsa, pois não se tem notícia da prisão da mulher de Lampião, nem se tinha conhecimento naquele ano, que ela assim era chamada.
- Foi publicada no Diário de Pernambuco em 26 de maio de 1936, a manchete:
Chegou ao Recife uma das vítimas de Lampião. A matéria relata a castração realizada por Virgínio, cunhado de Lampião. Por motivos estranhos a personagem vítima do cangaceiro, Manoel Bezerra, identificou para o jornal a companheira de Virgínio como sendo Maria Bonita. Na verdade a companheira de Virgínio era Durvinha, (mãe de Lili, nossa confrade conselheira do Cariri Cangaço). Não há relatos ou evidências nesse período que o nome Maria Bonita fosse atribuído à Maria de Déa a companheira de Lampião, nem a presença dela no local desse ocorrido. Esse nome pode ter ocorrido à vítima, pela situação limite em que se encontrava entre a vida e a morte naquele momento.
- Em 22 de julho de 1936 o jornal A Noite, divulga o rapto de um casal de lavradores, devido o envolvimento de quatro homens, incluindo pessoas de destaque e uma mulher. O acontecido causou reboliço entre os moradores da fazenda Patrimônio no distrito de Henrique Galvão, município de Divinópolis no estado de Minas Gerais e a mulher ganhou logo o apelido de Maria Bonita.
- Diário de Pernambuco, sexta-feira 12 de fevereiro de 1937.
Alguns curiosos flagrantes da vida do rei do cangaço – Colhidos pela câmara cinematográfica.
O senhor Benjamin Abrahão da ABA Film, de Fortaleza, trabalhou mais de um ano para conseguir fotografar o famoso bandoleiro Lampeão e seu grupo.
Na matéria do jornal constam quatro fotos e parte do texto é o seguinte:
(...) Embaixo, Maria Oliveira, companheira do bandoleiro e conhecida como “Maria do Capitão”, penteia os cabelos compridos de Lampeão, perfumados com a banha cheirosa que é tão do seu agrado.
- Em outra data o Diário de Pernambuco, de 17 de fevereiro de 1937, estampa a foto da mulher de Lampeão com a manchete “Maria do Capitão” – Madame Pompadour do cangaço.
(...) tem os nossos leitores uma pose feita, com toda dignidade cinematográfica de uma Greta Garbo, pela famigerada Maria Oliveira, vulgo “Maria do Capitão”, companheira do famoso bandoleiro Lampeão.
- O Diário de Notícias em 15 de junho de 1937 faz menção a uma das principais fazendas do Espírito Santo naquela época, que iria exportar os primeiros produtos da lavoura de cacau no Rio Doce, chamada Maria Bonita. Evidentemente, o nome dado à fazenda não tinha relação com a personagem do cangaço.
- Ainda em 1937 a imprensa faz uma ampla cobertura de mais de oito meses de um filme, citando a protagonista, uma centena de vezes pelo nome do título da obra Maria Bonita. Esse filme não tinha relação com a rainha do cangaço foi baseado na obra Maria Bonita, de Júlio Afrânio Peixoto (1876 - 1947), membro da Academia Brasileira de Letras desde 1932.
A primeira edição desse romance regionalista é de 1914 e até a morte de Maria de Lampião teve mais quatro edições, 1917, 1921, 1926 e 1934.
O jornal A Nação, do Rio de Janeiro em 29 de julho de 1937 anunciava:
Maria Bonita, o primeiro filme regional feito entre nós!
A notável obra de Afrânio Peixoto transportada para o celuloide por Julien Mandel!
Dia 2 de agosto no Palácio.
Uma página emocionante, arrancada da vida do sertão baiano, com todos os seus dramas e suas paixões!
- Em 1938 no dia 29 de julho, os jornais do país, publicaram telegramas oriundos de Piranhas anunciando finalmente a morte de Lampião e outros companheiros, principalmente os jornais: Diário de Notícias do Rio de Janeiro, A Tarde e O Imparcial, estes de Salvador.
Consultei cerca de 150 matérias de jornais que publicaram o fim de Lampião e a maioria publica as informações de telegramas de 28 de julho de 1938, todos originados de Piranhas em Alagoas, onde o nome Maria Bonita é citado com destaque, pela primeira vez como alcunha da esposa de Lampião, nesse dia, sobre as notícias dos acontecimentos de Angico, fazenda que servia de coito aos bandoleiros, localizada, na época, no município de Porto da Folha, hoje Poço Redondo Sergipe.
- A Noite, Rio de Janeiro, quinta-feira, 28 de julho de 1938, edição extra das 19 horas:
Morto Lampeão! – Em companhia do rei do cangaço estavam mais dez bandidos que foram também massacrados.
Foi enviado um telegrama pelo senhor Durval Rocha que está assim redigido: Santana do Ipanema (Alagoas) - urgente - A Noite - Rio - onze bandidos, inclusive Lampeão, foram mortos pela polícia alagoana, na fazenda Angicos, em Sergipe. Abraços. (a) Durval Rocha
Note os leitores que foi citado apenas o nome do rei do cangaço.
No dia seguinte o mesmo jornal publica na edição das onze horas a manchete:
Lampeão foi degolado! – A amante do terror do nordeste e mais nove bandidos exterminados do mesmo modo.
Publica também uma comunicação oficial:
Maceió, 28, às 21:30, (serviço especial de A Noite) - O interventor federal no estado acaba de receber do coronel Lucena, comandante do 2º Batalhão, aquartelado em Santana do Ipanema, o seguinte despacho telegráfico: “Acabam de chegar aqui o tenente João Bezerra, o aspirante Ferreira Mello e o sargento Aniceto com as cabeças de Lampeão, Maria Bonita, Ângelo Roque, Luiz Pedro, e mais sete cabeças dos bandidos, todos onze mortos no combata da fazenda de Angicos em Sergipe. Morreu o soldado volante Ferreira e outro ficou ferido. O tenente Bezerra também está ferido levemente. Estou providenciando a remoção das cabeças dos bandidos para essa cidade. Abraços”.
Esse telegrama foi reproduzido pelos jornais no dia 29 incluindo o Diário de Notícias do Rio de Janeiro, Diário de Pernambuco, Diário da Noite, entre outros.
Os jornais listaram os seguintes cangaceiros mortos:
- A Tarde, Maceió, 28 – A notícia comunicada ao chefe de polícia de Maceió – O comandante Lucena acaba de comunicar ao chefe de polícia as mortes do bandido Lampeão, Maria Bonita, Ângelo Roque, e mais sete bandidos.
Em outra manchete do mesmo jornal – Travou-se o feroz combate corpo a corpo - Tombaram sem vida Lampeão sua companheira Maria Bonita, Luiz Pedro, Ângelo Roque, Elétrico, Caixa de Fósforo, Mergulhão, Cajarana, Diferente, Enedina, e mais um que ainda não foi reconhecido.
- Diário de Notícias, Maceió, 29 - O prefeito de Piranhas telegrafou as autoridades comunicando que chegou aquela cidade o tenente Bezerra trazendo as cabeças de Lampeão e de sua companheira Maria Bonita e mais nove bandidos, todos mortos no covil, onde se encontravam, quando foram surpreendidos pelas forças alagoanas. O tenente Bezerra foi ligeiramente ferido em combate.
- O Imparcial – 29, - Tombou, afinal, o Rei do Cangaço! Lampeão, Luiz Pedro, Ângelo Roque, Maria Bonita e mais sete bandidos abatidos pela polícia alagoana - As cabeças chegarão hoje a Maceió.
A identificação das cabeças foi feita no mesmo dia da morte dos cangaceiros e publicada inclusive a morte de Ângelo Roque, (que não havia morrido) e de um cangaceiro intitulado “não conhecido”.
Depois de setenta anos do fato, nas minhas pesquisas, tive a alegria de conseguir fazer a identificação daquele que foi por todo esse tempo denominado nas fotos como “não conhecido”. O nome do cangaceiro era Luiz de Thereza, natural de São Paulo, Sergipe, atual Frei Paulo, essas informações foram publicadas no meu livro Fim do Cangaço – As entregas (já esgotado).
A famosa foto das cabeças dos cangaceiros na escadaria da prefeitura da cidade de Piranhas, feita pelo fotógrafo conhecido por José Carlos, na primeira tiragem de revelação não consta o nome do lado esquerdo da fotografia, vê-se apenas a numeração próximo de cada cabeça. Só na segunda tiragem aparece o nome Maria Bonita, além dos outros cangaceiros à esquerda.
Lembro ao leitor que a diferença para constar o nome dela foi apenas a viagem de trem para Delmiro Gouveia, para conseguir papel fotográfico para a segunda tiragem onde passou a constar o vulgo Maria Bonita.
Concluindo:

Foto: Antonio Galdino
Estátua de Maria Bonita na Praça das Mangueiras - Paulo Afonso-BA

Estátua de Maria Bonita na Praça das Mangueiras - Paulo Afonso-BA

Mostro que os jornais impressos como os citados acima, fizeram referência para denominar em outras situações e outras mulheres, utilizando o nome Maria Bonita, mesmo antes que esse se consolidasse para “batizar” a mulher de Lampeão. Entretanto, na imprensa, a primeira vez que foi identificada a mulher de Lampião como Maria Bonita, foi na tarde do dia 28 de julho de 1938, nos telegramas enviados pelo prefeito Antônio Correia de Brito para as autoridades, secretário de segurança pública e comandante da polícia militar de Alagoas pelo telégrafo nacional sediado em Piranhas Alagoas e daí publicada pelos jornais de todo país.
O prefeito que foi o autor dos telegramas provavelmente, naquele momento, pediu as pessoas do lugar e dos volantes a identificação das cabeças.
Não contesto outras versões, apenas peço ao leitor que preste atenção nos argumentos e na documentação pesquisada ou adquira o livro Notícias sobre a Morte de Lampião (também esgotado), onde consta a reprodução dos jornais com todos os telegramas oficiais com suas datas.

Luiz Ruben F. de A. Bonfim
Conselheiro do Cariri Cangaço
Turismólogo - Economista - Membro da ALPA

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