15 de março de 1948. Nasceu a CHESF, há 77 anos. Um retorno às nossas origens.
Reprodução da reportagem de Theófilo de Andrade em O CRUZEIRO de 12 de julho de 1947
Antônio Galdino da Silva
Em 15 de março, durante muitas décadas, em tempos pioneiros, a cidade de Paulo Afonso vivia um dia de reboliço geral.
Nos primeiros tempos, a Banda de Música da CHESF estava à frente da intensa programação que incluía desfile dos estudantes na Rua do Gangorra, no Acampamento da CHESF e na Rua da Frente, a Vila Poty.
E a festa já começava dias antes nas Escolas Reunidas da CHESF e no Ginásio Paulo Afonso. E entrava pelos escritórios. Todos os anos, em 15 de março, comemorava-se festivamente o aniversário da Chesf e com a presença de diretores e do presidente da empresa que vinham do Rio de Janeiro, nos primeiros anos ou do Recife, para isso.
Sempre foi um evento memorável!...
Também no desfile cívico do dia 7 de setembro, a Banda de Música e vários órgãos da Chesf, Oficinas, Guardas e outros desfilavam e ali estavam caminhões e máquinas e o orgulho da Chesf de estar contribuindo para a redenção, a independência do Nordeste, como nesse desfile de 7 de setembro de 1956.
Afinal, todos comemoravam a existência da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco, o aniversário da criação de sua primeira diretoria, empossada em 15 de Março de 1948, pois a CHESF foi criada anos antes, em 3 de outubro de 1945, quando o presidente Getúlio Vargas assinou os Decretos-Leis 8031 e 8032, a ele levados pelo seu Ministro da Agricultura Apolônio Jorge de Farias Sales.
Ao se instalar na margem baiana do rio São Francisco, no lugar conhecido como Forquilha, inexpressível lugarejo esquecido do município de Glória, que ficava a 30 quilômetros de distância, primeiro a CHESF criou milhares de empregos para os sertanejos e, 10 anos à frente, resultado de sua presença nessa região, nasceu uma cidade no meio do nada, melhor dizendo, no meio da vegetação da Caatinga, cidade que já nascia grande, com 25 mil moradores.
Ao longo dos anos, criou-se o hábito de se comemorar o aniversário da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco, em 15 de março, dia da posse da sua primeira diretoria.
Mas, nesse Brasil de muitas histórias, antes do final do mês de outubro de 1945, Getúlio Vargas foi deposto, o Presidente do Supremo assumiu o governo até que, em dezembro, em eleições indiretas, o General Eurico Gaspar Dutra assumiu a presidência da República Federativa do Brasil.
E os Decretos-Leis de criação da Chesf ficaram hibernando, em sono profundo, em uma das gavetas do governo federal.
Passados quase dois anos da assinatura daqueles Decretos de criação da CHESF, em julho de 1947, o presidente General Eurico Gaspar Dutra e numerosa comitiva vieram conhecer as maravilhosas quedas da Cachoeira de Paulo Afonso.
A Revista O CRUZEIRO, de Assis Chateaubriand, acompanhava a visita do presidente e estampou nas páginas 58 a 62 e ainda em partes de outras páginas, com grandes fotos de Ângelo Regato e texto do geógrafo Theófilo de Andrade, a reportagem que revelava, no seu título em caixa alta, o motivo desta visita presidencial a este deserto catingueiro: ENERGIA PARA O NORDESTE.
O título e a legenda da foto de todos os visitantes diante da Cachoeira de Paulo Afonso, revelavam que os Decretos de criação da Chesf pareciam ter acordado do seu sono desde outubro de 1945. A legenda da foto diz: O PRESIDENTE DUTRA e sua comitiva em frente à queda principal, cujas águas deverão ser captadas para movimentar a grandiosa usina elétrica projetada.
Em outra foto, de página dupla desta edição de 12 de julho de 1947 da Revista O CRUZEIRO as muitas águas da Cachoeira de Paulo Afonso e no canto direito um pequeno box com o texto: 608.000 CAVALOS! Salto principal da cachoeira de Paulo Afonso que, aproveitadas industrialmente, poderá fornecer 608.000 cavalos ao Nordeste, desde a Bahia à Paraíba.
O texto de Theofilo de Andrade dá conta que o Presidente Dutra, nessa viagem de 1947 foi o segundo chefe do país a visitar a Cachoeira de Paulo Afonso, que também foi visitada pelo Imperador D. Pedro II, 88 anos antes, em 1859.
Mas, embora a visita ilustre do presidente da República a esses confins tivesse o objetivo de fazer valer os Decretos de criação da Chesf, revela o experiente geógrafo Theófilo de Andrade, uma preocupação maior do presidente General, ainda tratado como Ministro da Guerra – a defesa nacional, como afirma o geógrafo e jornalista nessa reportagem.
Assim diz Theófilo de Andrade, ainda no começo do seu texto: “Não se tratava de uma excursão de rotina. O chefe do executivo, tendo um dispositivo constitucional a cumprir, decidiu-se ir, pessoalmente, verificar as diversas faces de um grave problema nacional, que a ele se impusera, inesperadamente, quando Ministro da Guerra, em um dos seus aspectos mais graves – o da defesa nacional.”
Em 15 de março de 1948, há 77 anos atrás, quando a primeira diretoria da Chesf foi nomeada e logo foi anunciada a construção da Usina de Paulo Afonso, milhares de nordestinos, como aconteceu com meus pais João Galdino e D. Severina, eu e meu irmão José no dia 20 de novembro de 1954, desciam dos caminhões paus-de-arara, na Rua da Frente da Vila Poty com um único objetivo: trabalhar na CHESF.
Engenheiro Luiz Fernando Motta Nascimento, pioneiro de Paulo Afonso, ex-Diretor de Construções e de Suprimento da Chesf e seu livro, lançado em 1998, em Salvador-BA
Assim, na data em que a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco teve a sua primeira diretoria nomeada pelo mesmo General Dutra, quero parabenizar todos os pioneiros chesfianos e faço isso através engenheiro Luiz Fernando Motta Nascimento, pioneiro de Paulo Afonso desde a Usina Piloto, em 1946, quando seu pai, Mestre Eletricista Alfredo Hermínio chegava para trabalhar nessa Usina Piloto.
Depois, Luiz Fernando e seu irmão Hélio, foram alunos das Escolas Reunidas da Chesf e do Ginásio Paulo Afonso, onde Luiz se formou em 1958 e, concluído o Curso de Engenharia Elétrica em Salvador e Recife, foi duas vezes diretor da CHESF – de Construções e de Suprimento.
Em seu nome, quero parabenizar a todos os pioneiros que construíram a maior empresa do Nordeste e que hoje, tendo sido a Chesf privatizada e transformada na Eletrobrás, os da primeira geração chesfiana e os que continuaram essa obra que mudou a história do Nordeste, choram, entristecidos, porque lhes tiraram o apoio à saúde, fechando o Ambulatório, restringem o seu acesso aos escritórios e lhes impedem o acesso às Usinas que eles construíram com suor e sangue.
E decidimos republicar, na íntegra, inclusive com as fotos da época, toda a reportagem da revista O CRUZEIRO de sua Edição Nº 38, de 12 de julho de 1947, quando era dirigida por Antônio Accioly Neto e onde o autor do texto Theofilo de Andrade elogia a iniciativa pioneira de Delmiro Gouveia embora o trate como sendo baiano.
Parabéns aos “cassacos” pioneiros e a todos os que, nas décadas seguintes, continuaram a construir a Chesf dos nossos pais, avós.
E, não deixem de ler esse resgate histórico sobre o processo de criação desta empresa hidrelétrica que mudou, radicalmente a história do Nordeste, depois que esta região passou a receber a “luz de Paulo Afonso”, a partir, oficialmente, de 15 de janeiro de 1955 com a inauguração da Usina de Paulo Afonso I.
Reafirmo o que tenho dito em outras oportunidades. A história do Nordeste tem dois grandes capítulos; o primeiro, do Nordeste miserável, com os índices de desenvolvimento humano piores que os mais pobres países da África, até o final da década de 1940. Era do Nordeste A/C (Antes da Chesf). O segundo capítulo começou a ser escrito a partir de janeiro de 1955, quando a “luz de Paulo Afonso” chegou ao Recife e a Salvador. Este é o Nordeste D/C (Depois da Chesf), que se conhece hoje.
ENERGIA PARA O NORDESTE
Reportagem de THEOFILO DE ANDRADE
Fotografias de ÂNGELO REGATO
Publicação na Revista O CRUZEIRO Nº38, de 12 de julho de 1937
Tem-se posto em relevo o fato de ter sido o General Eurico Gaspar Dutra o segundo chefe do governo, no Brasil, a inspecionar o Rio São Francisco. E esta circunstância confere, de fato, à visita presidencial sentido histórico. Não se tratou, positivamente, de uma excursão de rotina. O chefe do executivo, tendo um dispositivo constitucional a cumprir, decidiu-se a ir, pessoalmente, verificar as diversas faces de um grave problema nacional, que a ele se impusera, inesperadamente, quando Ministro da Guerra em um dos seus aspectos mais graves o da defesa nacional.
E a visita teve, sem dúvida, efeito catalizador, pois, de chôfre, vimos postos em equação todos os problemas ligados àquele caudal que tamanho papel representou nos albores da nossa civilização e que, por uma incúria indesculpável, fôra sepultado. desde décadas, no mais completo esquecimento.
Diga-se de passagem que o Rio São Francisco tem sido uma fonte de problemas desde o dia da sua descoberta, a 4 de outubro de 1501, por André Gonçalves e Américo Vespúcio. Os corógrafos antigos, vendo o volume d`água que aquele rio e mais o Amazonas e o Prata atiravam ao Atlântico, imaginaram que todos eles tivessem origem comum, em imenso lago interior, a que deram o nome de Lagoa Dourada, Alagoa Grande, Água Grande, Iguaçu ou Sumidouro.
Gandavo, o nosso primeiro historiador, deixou expressa a existência daquele "lago muy grande" e Frei Vicente Salvador refere que a viagem de Gabriel Soares teve por finalidade atingir aquela famosa Lagoa, de habitantes ricos em ouro e pedrarias e que, durante séculos, queimou a imaginação de milhares de aventureiros, entre os quais Belchior Dias, cujos tesouros, supostamente enterrados, ainda hoje há quem tente descobrir. A atração do ouro e das esmeraldas foi o grande engodo de que se serviu o destino para atrair os homens audaciosos da penetração. Serviu para descobrir o rio e constatar que, em lugar da lagoa misteriosa, havia apenas serras portentosas, cobertas de matas virgens, que, por si só, alimentavam três dos maiores rios do mundo:
A civilização só começou, porém, a penetrar naqueles sertões quando, graças à ação de Garcia d'Avila e os seus descendentes que, como fundadores de impérios espalharam pelas margens do São Francisco os currais de gado que haviam de alimentar, pelos séculos afora, os núcleos litorâneos, espalhados e dispersos, pela costa vastíssima.
Durante a colônia, o São Francisco foi o centro de uma grande cultura pastoril e serviu, ao mesmo tempo, de via de comunicação interior, ligando o norte ao sul. Foi estrada de bandeiras e traço de ligação tão forte entre as antigas capitanias, que Licínio Cardoso divisou nele o “rio da unidade nacional”.
O Império não o descurou. É que, sendo a Bahia a “Virgínia Brasileira”, ou seja, a terra que maior número de estadistas deu à monarquia, foi das margens do São Francisco que saíram muitos dos seus filhos mais ilustres, bastando citar os nomes de Cotegipe, José Mariani, José Bento da Cunha Figueiredo, Visconde Bom Conselho, naturais da Vila da barra, e o Barão de Macaúbas, de Pilão Arcado.
Compreende-se, pois, as expedições de Halfeld e Liais, a visita que fez ao rio o Imperador Pedro II e a construção da Estrada de Ferro Jatobá-Piranhas que, vencendo a Cachoeira de Paulo Afonso, foi um dos empreendimentos mais sábios, em política de transportes, do antigo regime.
Desgraçadamente, a República não prosseguiu no caminho iniciado. A sua política ferroviária, destinada antes a fomentar a cultura de café no sul do país, abandonou o S. Francisco e o seu vale. Ao invés de progredir, regrediu. Aquele rio que, durante a colônia tinha sido, para usar a conhecida expressão de Capistrano de Abreu, um "condensador de gente", passou a despovoar-se. A elite fugiu para as capitais. E as populações rurais, sempre que podiam, iam abandonando o vale imenso, extensíssimo, mas sem futuro. Trocavam-no por zonas onde o trabalho era mais compensador e a subsistência mais fácil. Em nenhuma parte, talvez, do país inteiro, verificou-se, com mais precisão, aquele drama histórico traçado, em poucas pinceladas, por Eça de Queiroz, em carta íntima, endereçada a Eduardo Prado, só divulgada em 1934: "Apenas as naus do Sr. D. João VI se tinham sumido nos mares atlânticos, os brasileiros, senhores do Brasil, abandonaram os campos, correram a apinhar-se nas cidades e romperam a copiar, tumultuariamente, a nossa civilização europeia".
Os que ficaram no vale, permaneceram isolados no planalto. De pouco valeu a chegada até lá, da Central do Brasil, no sul e da Leste Brasileira, no norte, ligando ao litoral as duas cabeças do canal navegável. As distâncias eram e são muito grandes. E os transportes por tal forma caros que não permitem comércio lucrativo. A economia ficou, por isso, limitada ao próprio suprimento, cada vez mais deficiente, pelos males por demais conhecidos do latifúndio.
Por outro lado, a carência de técnica agrícola, prolongou, pela história a dentro, os métodos primitivos da agricultura indígena, que só sabia desenvolver-se na cinza das queimadas. Foram destruídas as matas. Modificou-se o clima. Alterou-se o regime de chuvas. A estação seca ficou mais prolongada. E a invernosa passou a ser calamitosa, geradora de chelas, pois já não havia árvores para reter a água nas montanhas.
E, se tudo isso não bastasse para truncar, inteiramente, a vida do vale, sobreveio a malária, para tirar às populações ribeirinhas a capacidade de trabalho e liquidar a energia da raça.
Com o entupimento do rio, pelas enchentes sucessivas, a navegação, antes franca, desde Sabará, foi-se reduzindo, de ano a ano. E a terra, onde, outrora, florescera a civilização dos currais, passou a ser, praticamente, um deserto, pontilhado, aqui e ali, pelos oásis de alguns grupos humanos, congregados em terrenos de brejo, de irrigação natural. É este o quadro da geografia humana de extensíssimas glebas de solo calcáreo, dos mais ferazes do Brasil Central, e que margeiam um dos mais caudalosos rios perenes do mundo!
Estavam as coisas neste pé, quando a última guerra veio pôr à mostra uma nova face do problema, tão antiga quanto a própria existência do país, e que as circunstâncias felizes que presidiram a nossa evolução, nos dois últimos séculos, haviam feito esquecer: o rio São Francisco não foi substituído, desde a época da penetração até hoje, como estrada interior, de ligação, entre o sul e o norte do país.
Apesar de quatro séculos de existência e de mais de um de vida independente, ainda não unimos as antigas capitanias, as províncias do Império e hoje Estados da República, por vias internas de comunicação. Apenas, desenvolvemos, graças a dispositivos constitucionais que reservaram a navegação de cabotagem para a bandeira nacional, as linhas de navegação que beiram a costa.
Tendo, porém, o último conflito se distendido às nossas águas, vimos a ligação marítima dificultada, interrompida quase, pela ação dos submarinos inimigos. Tivemos, então, de nos socorrer daquele velho caminho potâmico a fim de transportar para o Nordeste as tropas, as armas e as munições com que deveríamos defender os pontos extremos da nossa costa nordestina, contra um possível ataque vindo da África Oriental em poder do inimigo. Tal qual como nos tempos da Guerra Holandesa, há mais de trezentos anos! Só então vimos como eram precárias as nossas linhas internas de comunicação e como estava aparelhado o São Francisco...
Ninguém deve ter sentido mais profundamente o paradoxo dessa situação do que o General Eurico Gaspar Dutra que, como Ministro da Guerra, era responsável pela defesa do nosso território. Daí, o interesse que, desde aquela época tomou pelos problemas conexos com a grande artéria. É fácil, pois, que tenha sido ele o segundo chefe de governo a visitá-lo e o primeiro dos estadistas da República da dispensar-lhe o que impropriamente se chama de favores do governo quando na verdade se trata de um imperativo nacional.
O Deputado udenista Manuel Novais, no discurso que pronunciou em Joazeiro, teve oportunidade de fazer o inventário do quanto já fez o Presidente Dutra pelo São Francisco, neste começo de governo. Todos os créditos votados e empregados, no Império e na República, até aqui, na região sãofranciscana, totalizaram 45.900.000 cruzeiros, ao passo que, no presente quinquênio governamental, já foram votados e estão sendo aplicados nada menos de 130.700.000.
Mas importante ainda, porém, foi a introdução, em nossa nova Carta Magna, do art. 29 das Disposições Transitórias, que reservou, pelo espaço de 20 anos, 1% da renda federal para obras de recuperação econômica do vale do São Francisco. Aquele dispositivo, que nasceu da emenda 179, apresentada pelo próprio Sr. Manuel Novais, venceu as dificuldades que se lhe apresentaram graças à simpatia e ao apoio que lhe dispensou 0 General Dutra, por intermédio do líder da maioria.
Mais ainda: foi como beneplácito do chefe do governo, que se deu andamento ao projeto criando a Comissão Técnica de Planejamento e Execução das Obras de Aproveitamento Econômico do Vale do São Francisco. E, recentemente, foi o General Dutra quem deu instruções ao Ministro da Agricultura para dar cumprimento ao Decreto-lei n. 8.031, de 3 de outubro de 1945. que criou a Empresa Hidroelétrica do São Francisco, destinada a explorar o potencial da Cachoeira de Paulo Afonso.
Apolônio Jorge de Faria Sales, quando presidente da CHESF - de maio/1962 a junho/1974, no Mirante da Cachoeira de Paulo Afonso, na Ilha do Urubu - CHESF-Paulo Afonso-BA
Este projeto tem sido animado, desde alguns anos, por um nordestino de visão, o Sr. Apolônio Sales, que descortinou a possibilidade de aproveitar-se a energia com que a natureza nos presenteou, ao atirar o São Francisco do planalto para o litoral, nos limites entre Pernambuco e Alagoas, em uma das cataratas mais portentosas que ornam a face da terra.
Há anos, um caboclo, baiano de gênio empreendedor, o inesquecível Delmiro de Gouveia, varou o sertão para aproveitar um filete da grande cachoeira. Só com aquela parcela mínima, construiu, a pouco mais de vinte quilômetros da queda, um centro industrial, em plena selva. O que aquele pioneiro realizou em pequeno, projetou o Sr. Apolónio Sales em larga escala. Sonhou com um centro de energia que sirva não a um ponto isolado, mas a toda uma região econômica.
Idealizou uma usina geradora com capacidade para 608.000 cavalos-motor e cuja rede distribuidora vá beneficiar o Nordeste, da Bahia à Paraíba. A usina, de acordo com o projeto que tem obtido as preferências dos técnicos, deverá ter oito unidades de 76.000 cavalos, cada uma, das quais, de início, deverão ser construídas apenas duas, surgindo as outras à proporção que as necessidades da indústria o forem exigindo.
O plano é de uma simplicidade admirável, compreensível ao leigo, à mera vista da planta da cachoeira. Consiste na construção de uma barragem de pequena altura entre a Ilha Barroca e a margem alagoana, para conduzir a descarga do rio para o braço da Tapera. Ao mesmo tempo, prevê a regularização do braço da Velha Eugênia e a construção de galerias que o distenderá ao ponto aonde deverão ficar as chaminés de equilíbrio e de onde partirão as tubulações de descarga para a usina geradora, situada do outro lado da cachoeira, a apenas 1.200 metros a jusante da Furna dos Morcegos e que aproveitará o desnível máximo do rio.
Construída que seja aquela usina, cujo custo é relativamente pequeno, ter-se-á cria do a possibilidade de industrialização do Nordeste, ou seja, a redenção de toda aquela vasta zona onde vivem, atrasados e pobres, 12 milhões de brasileiros. Restabelecer-se-á o equilíbrio econômico entre o sul e o norte, indispensável à unidade nacional, e que se pode hoje medir exatamente pela diferença de quilowates consumidos: no sul, um milhão; no norte, 110.000.
Esta é, efetivamente a tarefa maior a realizar no vale do São Francisco, a que mais fala à imaginação, Seria, porém, uma iniquidade que se aproveitasse a força hidroelétrica da grande cachoeira para a multiplicação da capacidade Industrial dos homens do litoral e se deixasse no esquecimento o rio, como via de comunicação, e o vale, com as suas terras ferazes, mas secas, e a sua população de três milhões de almas vegetando, sem possibilidade de progresso ou cultura, em uma área de 600.000 quilômetros quadrados.
Todos estes problemas estão, porém, sendo postos em equação. Já vingamos a etapa das promessas e entramos na das realizações práticas. Há créditos votados e um programa para muitos anos, cujo estudo e execução estão confiados à Comissão Técnica de Planejamento.
A tarefa é vasta e pode ser definida em três palavras: navegação, irrigação e saúde. Deles trataremos em nossa próxima reportagem.
Prezado Mestre Antônio Galdino. Parabéns pelo excelente e importante Artigo sobre a História de Nossa Querida Chesf. É importante que os jovens e o público em geral conheçam a história da primeira usina hidrelétrica subterrânea das Américas construída pela Chesf. Hoje registramos com muita satisfação e orgulho a participação dos pioneiros e seus discípulos na construção de todas as grandes hidrelétricas do Brasil.
Só Galdino mesmo, para detalhar tão bem essa matéria! Parabéns!!Paulo Afonso agradece!
Que trabalho maravilhoso.
Extraordinário!
Parabéns a CHESF