O Bolsa Família que desejamos
Francisco Nery Júnior
Eu menino nos meus cinco ou seis anos, lá no fim da rabada da prole do velho Nery, ficava arrasado, sem nada entender, nas andanças lideradas pela minha irmã Niçu nos arredores da casa onde morávamos no Bairro do Garcia em Salvador.
Nos mocambos e casebres, alguns quase quilombos, entre o Garcia e os Barris onde nasci e a família tinha deixado caros amigos, na realidade um vale entre cumeadas, alguns fatos que presenciei deixaram marcas muito profundas na minha alma infantil.
Em uma das “expedições” lideradas por Niçu, em uma viela ou beco apertado, na porta da velha casa, uma senhora, com um longo vestido surrado, tomava banho. Não havia banheiro nem área de espécie alguma na parte dos fundos. Um velho tonel enferrujado e ela a retirar pequenos baldes de água que lhe descia corpo abaixo. Um pouco tempo antes, lá pelos meus quatro anos, morreu outra senhora. A minha irmã, que se fosse hoje poderia ter sido uma líder comunitária, tinha que estar por perto. Era já pela noite, na realidade o começo da noite; de noitinha. A casa da falecida era de sopapo e chão batido iluminada por um candeeiro rudimentar que soltava fumos negros para o ar; para mim, terríveis baforadas a simbolizar a derradeira libertação da pobre coitada. Ao redor, dois ou três vizinhos que apenas balbuciavam algumas palavras que me pareciam partes de rezas decoradas.
Casos e cenas semelhantes me chocaram infância afora. Tinha o seu Filônio, carregador profissional com plaquinha de zinco numerada no peito fornecida pela Prefeitura. Todos os anos, na época da Novena do Senhor do Bomfim, seu Filônio, que me chamava reverencialmente “seu Chiquinho”, tinha a tarefa de levar o contrabaixo do velho dos Barris até a igreja da Colina Sagrada – nos ombros.
Ladeira da Montanha abaixo e Ladeira da Montanha acima, por cerca de doze quilômetros, ele, já na quadra dos cinquenta anos, cumpria o seu dever que eu desconfio considerava sagrado. Bem claro na minha memória a entrega do instrumento à minha mãe na etapa da volta e o[s] copo[s] d’água que ele bebia com avidez. Embolsava o valor acertado do carreto e a vida continuava. Não vou descrever para o leitor o que eu sentia. Melhor poupá-lo. Aliás, não saberia descrever.
Eu tinha a convicção que algo poderia ser feito. Alguma coisa deveria ser feita. A convicção se aprofundou quando eu contemplava as casas das famílias abastadas nos Barris. Desconfortavelmente localizado no meio das duas realidades, eu penava com o meu coração socialista. Fui amadurecendo e ele, o meu coração, clamava por medidas baseadas na imaginação.
No final do século passado, Antônio Carlos Magalhães lançou a sugestão de algum tipo de auxílio para os mais miseráveis que desaguou nas mais variadas bolsas dos últimos governos de esquerda. Desavisados do fato que a virtude está no meio, os ditos governantes de esquerda não poupam criatividade na criação desenfreada de novos tipos de bolsas e auxílios com critérios discutíveis. O vídeo que nos chegou às mãos (vide acesso abaixo) pode ser um balizamento adequado para a concessão de auxílios aos nossos irmãos necessitados cujos recursos saem dos nossos bolsos, razão pela qual estamos a meditar sobre o assunto.
Francisco Nery Júnior
Compra de votos. Cadê o tribunal eleitoral yão rígido????????????????
" Acabou com a pobreza" pra virar miséria . Parabéns.