Um gato preto
Um passeio literário
Francisco Nery Júnior
Ele chegou de mansinho, negro como a noite sem luar. Passou por cima do muro e desceu. Escabreado como deve ser, maroto, desconfiado e cabreiro, olhou pra mim, apenas olhou, e desapareceu.
Dia seguinte, novamente por cima do muro. Desceu mais confiante. Olhou com ar mais firme, sondou as circunstâncias, quase me cumprimentou, e novamente partiu.
Terceiro dia, ainda mais cheio de si, já embaixo do muro, desta vez sentou. Chegou a estirar a perna. Lambeu-se como a se preparar para o encontro, mais íntimo o encontro, mas resolveu partir. Não sei se algum dia leu que o homem que confia no homem é maldito. Não que eu estivesse preocupado em ser maldito ou, no caso, torná-lo maldito.
Ele não é mais mocinho. Já deve ter visto coisas do arco da velha. Escapou-se de todas, o que prova estar vivo.
Já é dono da casa, leitor. Mesmo me hostiliza às vezes, eu que tenho mais paciência com os cachorros. Ademais, morro de medo de receber um arranhão de gato no caso de mau humor [dele]. Mas já é dono da casa. Como Cristo comigo dividiu o seu reino, com ele divido a casa. E ele deita e se lambuza.
Lá um dia, há sempre um dia, no quintal apareceu uma muchacha. Uma gata, quero dizer, o que me lembrou que numa casa de caboclo um é pouco, dois é bom e três é demais.
Calma, nobre leitor. Apenas uma citação. Por enquanto de longe - e furtivamente - ela vai tirando as suas casquinhas.
Francisco Nery Júnior
Que Liindoo!! 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻
Muchacha, garota no espanhol do México e coisa do arco da velha, coisa antiga, arcaica, de perder de vista. Seria "coisa da lei do arco da velha", por pesquisa.